Buba
20 novembro 2003
  Alá e a força - do destino Qual será dos 3 futuros Iraques o euro, anglo, americano? 
18 novembro 2003
  A Moura Daniel, desculpa lá vir chatear-te: sei que tens muito que fazer e pouco tempo para me aturar… mas fiquei apreensivo com os teus MMG desta 2ª feira – que me levam a supor que andas distraído… é que a Moura -já lá vai algum tempo, não muito - fez um número com o Sousa Tavares, numa espécie de baile de carnaval, em que ela, como era habitual, se apresentou como jornalista mas, com surpresa e espanto de quem assistia, mascarada de entrevistada. E, iniciada a função, perguntava e respondia ao mesmo tempo, não deixando falar o Sousa; e, quando ele conseguia dizer alguma coisa, ela também não deixava ouvir o que ele dizia. Até parecia que a moura estava com receio que o índiozinho falasse de copos e em sobriedade.
Ele não gostou do número e tentou, aliás brandamente, chamá-la à razão; mas ela reagiu e começou a esbravejar, como que alucinada, e abria de tal modo a boca que Deus lhe deu – que, ao Sousa, terá parecido a boca do inferno – e ,vendo a Moura em tal postura - de olhos arregalados, perdido o encanto natural das mouras, e a compostura indispensável aos bons profissionais da informação - mais surpreendido parecia ter ficado .
O Sousa certamente já a conhecia, mas o que, com certeza, não sabia é que ela era assim, quando começava a tomar o gosto à coisa e a empolgar. Não assististe? Não sabes o que perdeste. Foi de gritos: um prato de comer e chorar por mais…
Reforma? era só o que faltava. E depois quem é que há por aí, que se saiba, que tenha uma boquinha igual à da Moura e uma voz tão clara, bem timbrada e tão forte que, quando fala, até parece que nos quer bater?... Eu sou contra. E tu, Daniel, vê lá se não chateias a mocinha… Que afinal - eu conheço-te bem - e sei que gostas dela… 
17 novembro 2003
  Brel... Jacques Comunicam-nos d'A Praia - qual banheiro salva vidas, a alertar-nos do perigo - que você terá dito ter sido você próprio a única coisa que lhe aconteceu. E eu pergunto-me, vagamente inquieto, mas quanto ao futuro, como parece querer alertar-nos o Ivan: e quanto a nós? Não quanto a si, mas a nós todos: o que mais estará para nos acontecer? 
16 novembro 2003
  Foulard O Barnabé e A Praia são dois blogs muito bons, mas o Buba é um caso à parte: a antiguidade, como sabem, é um post (como diria o Eanes nos bons tempos…que andará ele a fazer?...)
Hoje, o post do Buba é sobre um episódio que ocorreu no colégio que eu frequentei antes de ir para o Gil Vicente e onde, no 1º e no 2º ano, tive dois colegas de turma -um deles, o Gambôa, colega de carteira - que eram pretos. O Gambôa foi um dos meus melhores amigos, dos tempos de rapaz, de tal maneira ligados – quase todos os dias andávamos ao soco: ele era o Gene Tunney e eu era o Jack Dempsey, dois pugilistas rivais nesse tempo, um negro e outro branco - que quando saí do colégio e fui para o Gil, o Gambôa arranjou maneira de tanto chatear o pai, que era médico em Angola, que acabou por vir também para o Gil. Conto-vos isto porque o episódio que também vou contar-vos tem a ver com o Gambôa que foi, até hoje, o gajo mais porreiro e com maior sentido de humor que eu conheci. E tem também a ver com outro nosso colega de turma, o Zé, um gajo mais espigadote do que nós - e mais burro, já tinha “gatado” duas vezes - que andava de derriço com uma miúda, dos seus 11anos, também colega de turma (em 32/33 as turmas eram mistas), a Cidália, que era um pilrete, vaidosita, que todos nós achávamos lindíssima. E vai daí, o Zé toca de se adiantar no cerco à eleita – aliás, por unanimidade – e, certa manhã, apresentou-se, para impressionar a sua bem amada, de óculos escuros, impante, como se fosse o Gary Grant ou outro daqueles galãs que nós víamos no cinema ao fim de semana. E o certo é que, pelos olhares de través que a Cidália deixava sair dos olhos - curiosos e ávidos de novas visões mais interessantes -, vimos logo que o Zé tinha a miúda no papo. Isto foi ainda cá fora, antes de tocar a sineta p’ra entrarmos na aula e ainda a Cidália estava lá em baixo, no pátio do recreio das raparigas, donde elas nos olhavam pudica e disfarçadamente, enquanto nós nos iamos aproximando da entrada… E mal tínhamos entrado para a aula de Português - cujo professor era um gajo muito velho e muito bem vestido, que usava lorgnon, dava ginchos e era um filho da puta - o Zé foi logo, ele e os óculos, tudo, escoltado pelo contínuo, qual guarda prisional, e ele filado por um braço, a caminho do gabinete de Direcção, onde em regra estava o Director, um Padre, outro filho da puta ainda pior que o Professor de Português. Porque, enquanto o professor se ficava pelo patamar da bofetada, o Padre, à mínima infracção, arriava a doer (com uma régua pesada com cinco buracos circulares - era a menina dos 5 olhos) 5 reguadas em cada mão, que era de ver as estrelas. E naquele dia - que podia ter sido de sorrisos e suspiros de amor - as 5 reguadas foram a dose que o José comeu logo ao pequeno almoço. Mas o pior foi o que se seguiu, e que me pergunto hoje como era possível acontecer: o espancado, que nunca resistia - eu também não resisti, quando foi a minha vez - acabava sempre por ceder à dor tremenda e repetida 5 vezes em cada mão e todos, sem excepção, quando agredidos, rebentavam em lágrimas, procurando aliviar as dores, metendo as mãos nos sovacos e, alguns, escabujando pelo chão. E nós, na sala de aula, ouvíamos os gritos por vezes lancinantes e víamos o sorriso sádico do professor... E depois, para rematar, vinha a parte pior, a mais horrível e que não desejo a ninguém, a humilhação: o rapaz punido era, invariavelmente, trazido, arrastado pelo corredor, pelo contínuo, como se arrasta um animal, sendo depois praticamente atirado, como se fosse uma coisa, para dentro da aula a torcer-se com dores e a chorar. Foi o que o contínuo, daquela vez - como era do regulamento -, fez ao Zé. E a Cidália estava lá e viu-o enrolado no chão e começou a gritar com as outras miúdas e a correr, desorientada, como se quisesse fugir dali, e a chorar também convulsivamente. Eramos uns putos… E a Escola era já a que o 28 de Maio tinha trazido e se manteve durante dezenas de anos. Não sei se era ou não era neutra; era “aquilo”.
Hoje, lembrei-me do Zé e do meu querido amigo preto que, depois, num intervalo, entre duas aulas, quase como se estivesse a segredar, referindo-se ao Professor de Português: «se o filho da puta me tivesse mandado à Direcção, o cabrão do padre era capaz de me arrancar a pele», dizia-me o Gamboa, às gargalhadas, como só ele sabia: como se estivesse a rir e a chorar ao mesmo tempo.
Onde estás, Gambôa? Tu querias que eu fosse contigo para Angola (ouço-te, na Portugália… «viste o Amílcar?... Eh pá, em Angola é a mesma coisa que aqui… as mesmas piadas da malta, nos cafés». E continuava, «eh pá, casas com uma miúda preta, tens filhos pretos…» e ria, ria, ria perdidamente, como só o Gambôa sabia rir… e nunca percebi, verdadeiramente, se era da hipótese do casamento, se era da minha cara de parvo ou da resposta “à letra” para onde às vezes o mandava. E certa vez, talvez a última vez que o vi antes de ir embora, num café pequeno de esquina, de que me não recordo o nome e que existia em frente do Monumental, o Gambôa chegou atrasado e explicou: «Sabes quem é que eu encontrei quando vinha para cá? A Cidália, a Cidália, pá, tu lembras-te da Cidália? Tem 3 filhos, pá! Ela ainda se lembrou da gente. A Cidália tem 3 filhos, pá! A gaja é fecunda, ó Prata!» - uma pausa, pensativo e sorridente: «a gaja é prolifera, pá!.. Ó Prata!» E depois ria, ria, perdidamente, como só o Gambôa sabia rir… Gostava de tornar a vê-lo e dizer-lhe: «Tu já não és português, já te disseram?» Gostava de ouvir dele o que ouviria, com certeza: uma sonora e forte gargalhada… e, a seguir, gostava de abraçá-lo, com muita força, contra o coração, dar-lhe um murro nos queixos e levar outro em resposta, como antigamente, e chorarmos, como chorámos os dois no dia em que brutalizaram o Zé e o atiraram para dentro da aula, a contorcer-se com dores, também a chorar. Não só de dor mas, sobretudo, de vergonha: por estar a chorar à frente da Cidália. E nós também chorámos por causa de o Zé ter levado porrada mas - recordo-me - tínhamos a sensação de que chorávamos também, com medo, de mais alguma coisa que pressentíamos que estava mal, embora sem sabermos ainda bem o quê. E que só mais tarde viemos a perceber o que era, e vimos, eu e o Gambôa, que tínhamos razão para ter medo e para chorar… éramos uns putos… e foi uma vida inteira...
Tudo isto veio à baila, por causa do foulard: lembrei-me dos óculos do Zé, de Bizâncio, do sexo dos anjos e do folar da Páscoa. E sorri agora, intimamente, já secas as lágrimas, quase há 30 anos, a pensar na guloseima e a pensar também que nas escolas portuguesas, com ou sem discussões ideológicas e neutras ou não, já se não proíbem óculos escuros nem se dão reguadas. Já existe liberdade e, sobretudo, a liberdade que a Escola reconhece: de cada um ser o que é, e como é. Sem lhe meterem pela boca a baixo seja que liberdade for, à porrada.
Nota: Peço aos meus 2 ou 3 eventuais leitores que não divulguem o que escrevi e, se puderem, guardem, deste segredo, A Praia e, sobretudo, o Barnabé, junto do qual estou muito bem visto. E se soubessem o que escrevi, podia ser uma chatice. É que, não sei se sabem, o Daniel, ao ler há dias um post que eu escrevi, disse que tinha ficado sem palavras e, se vier a ler o que eu escrevi agora, é capaz de dizer que mais valia eu ter estado calado.
 
14 novembro 2003
  Promessa de recompensa Uma vida complicada não me permitiu que viesse há mais tempo estar convosco. É sempre o mesmo problema: o do tempo. Que, no meu caso, não é só da falta dele - é também do excessivo tempo que já vivi, e dos desgostos que a vida me foi dando e que o tempo que passou não quis fazer esquecer nem quis levar com ele...
Essas as razões por que só agora pude vir dar-vos uma palavra para vos fazer saber, antes do mais, que ainda não morri. Que, se tivesse morrido, obviamente, eu ter-vos-ia dito… Não é disso que se trata… como é evidente. O que aconteceu foi que, inesperadamente, apareceu-me para fazer, com urgência, uma quantidade enorme de coisas, impossibilitando-me de continuar a escrever, para o blog, aquilo que depois, quando calha – de entre os 9 leitores do BUBA, confirmados -, um ou outro lê…
Deixo-vos, enquanto não volto - se voltar -, com saudades de ver - a ler em mim - os vossos olhos, e a esperança de poder dar-vos, ainda, algo mais de mim. É essa a promessa que vos deixo e será essa, também, boa ou má, a vossa recompensa. Por terem esperado por mim todo este tempo e com tanta paciência. BUBA. 
03 novembro 2003
  Daniel Os blogs A Praia, Buba e Barnabé permitiram que a tua carta acontecesse. Mais uma virtude deles, de que não tinha suspeitado: a de poderem reavivar amizades que, embora não esquecidas, com o fluir da vida se vão esfumando no tempo.
Por isso me fez bem a tua carta. Como a ti te fez bem - como dizes - teres voltado a ouvir um amigo que já há anos não ouvias. Porque, se é verdade o que diz o Ivan - quando fala sobre as marcas que a infância sempre deixa -, não é menos verdade que a vida é quase sempre como nos jogos de azar e de fortuna, branca ou premiada, conforme a sorte que couber ao número em que apostamos na roleta da vida, e que começa a girar na juventude.
Falas de mim como um homem que te fazia rir quando eras ainda um rapaz, quase uma criança, com quem, se hoje o ouvisses dizer as mesmas graças, talvez já te não risses; porque talvez, agora, já te pudesses aperceber de que nelas havia, para além da graça, a amargura - a minha e a de todos os que, da minha geração, comigo sentiram que a vida lhes passou ao lado, sem que lhes tivessem permitido que a vivessem… é que, Daniel: eu nasci em 1922; e o 25 de Abril veio 52 anos depois. Depois de já ter morrido, em mim, a esperança de algum dia poder viver a vida em Liberdade e sem medo da polícia.
Muito do que tu referes em mim, como sentido de humor desconcertante, passava muitas vezes por aí.

DOIS AMIGOS: Entrei no escritório e deparei com o Ivan e o Daniel debruçados sobre o tampo duma secretária, absortos. Como se estivessem em estado de hipnose. Mal para mim olharam. A espaços, e também sem se olharem, murmuravam sílabas, interjeições ou emitiam o que me pareciam surdos grunhidos…
Aconteceu já lá vão alguns anos.
Concentrados, como dois devotos em adoração ao menino Jesus, deitado nas palhinhas… ou o Daniel, qual cirurgião na mesa do bloco operatório, a cortar e a coser pedaços do paciente, inanimado e entregue às suas mãos, às quais o Ivan ia passando papel, tintas, cola, lápis de cores e outros materiais.
Vim a saber depois - é o que retive, não sei se com inteiro rigor – que teria sido o Ivan, às voltas com um problema delicado – arranjo de página de um jornal ou coisa parecida –, que teria chamado o Daniel para o ajudar, e ele, acorrendo de pronto ao chamado do amigo, ambos, logo ali, tinham posto mãos à obra.
Lembro-me ainda, com alguma nitidez, à saída, terminada a empreitada, já noite - é a imagem que me ficou, envolta pela neblina do tempo -, os três, à porta, já na rua, a despedirmo-nos: o Daniel, tranquilo, com a tranquilidade do dever cumprido, de acudir prontamente ao chamamento de um amigo - tão natural no Daniel como respirar - e ter pensado cá comigo: ou eu me engano muito, ou este miúdo vai dar um homem de parte inteira. Não me enganei.
Depois, ao sabor das andanças da vida, fui-lhe seguindo o percurso, pelo que ia lendo do que escrevia, como se ele estivesse a falar comigo e a rir-se de qualquer comentário meu, a que só o Daniel achava graça, ao ponto de, às vezes, lhe fazer doer o estômago.

PROJECTOS GORADOS - Tinha em projecto uma série de merdas para mandar para o Buba. A tua carta veio lixar tudo. O projecto era chatear meio mundo (entre os quais o Miguel Portas, por causa das propinas e da filha do Ministro; o Pires de Lima, por causa dos Magistrados; o PS por causa do Pedroso; e – esse anda, outra vez, mesmo a pedi-las - o Pacheco Pereira...) E vens tu fazer com que, não os chateando a eles, esteja agora a chatear-te a ti. O que quer dizer que se te tens ficado pelo Post-Scriptum é que tinhas tido juízo… mas tu és assim… agora aguenta. Mas também acrescento: não é obrigatório engolires este xarope todo de uma só vez: podes ir lendo, se tiveres pachorra, uma ou duas linhas, aos fins de semana, por exemplo. Tu é que vês... Sabes uma coisa? Tenho reparado que a malta nova ao que acha piada é mandar uns posts, género rapidinhas. Para mim, ao contrário, o que acho porreiro é o blog ser muito repousante; não empurra, não dá prazos, não chateia. Muito embora também seja, diga-se em abono da verdade, um bocado viciante. Mas nisto nós também somos culpados: somos como os governantes… como eles e como sempre, quando achamos mole vamos sempre carregando…
E para encerrar esta partitura e largar-te a samarra, ainda te direi quanto aos blogs e quanto a mim, confidencialmente: eu acho não é que esteja ultrapassado - acho é que estou completamente fora de prazo, como os rapazes do meu tempo (como o Soares, por exemplo, que esse então está completamente xexé: já reparaste no sorriso beato e imbecil que o gajo agora tem?). E como diz o ditado (nos blogs como na política, digo eu): “nem oito nem oitenta”... Mas confesso que mesmo ultrapassado, a cair da tripeça e fora das jogadas, me dá gozo, cá de fora, da bancada “amandar” umas bocas e dar umas sarrafadas. It's the blogs, stupid!

UM ABRAÇO - Qualquer dia, quando tiver tempo, vou-te dar um abraço. Que em casos destes, em regra, prefiro guardar as imagens gratas que a memória gravou e que o tempo, à medida que passa, vai tornando mais difusas mas também indeléveis, sem que me apeteça “actualizá-las”; deixando que continuem, na memória, como se fossem relíquias sagradas, sem retoques, tal como eram. Embora esmaecidas pela patine com que o tempo, entretanto, as foi enobrecendo…
São os filmes e os flashs que a vida vai gravando no disco rígido da alma e que o tempo, insidiosamente, a pouco e pouco, vai apagando da memória. Mas sem nunca o conseguir, completamente.
O jovem que escreveu no Barnabé o post “O falso octogenário” “apanhou” a mensagem, e com simpatia - e alguma benevolência - chamou ao que escrevi “textos enérgicos e bem dispostos”. Deixo aqui, especialmente para ele, o meu muito obrigado.

A PRENDA DE ANIVERSÁRIO - Vou mandar-te um escrito sobre a minha infância (nos cerca dos 9 anos) que só os quatro ou cinco “da casa” conhecem. É a minha prenda de anos para a tripulação do Barnabé e que vocês dois, tu e o Rui Tavares, especialmente, bem merecem. Até sempre. Salvador

“O JOÃO. - Nove? Já teria nove anos? Talvez. Não sei de todo. Não posso precisar. Sei que havia vários outros miúdos comigo: o Vedo, o Heitor, o “Arol” Cegueta, não sei quem mais. Ah! sim, o Arnaldo. Que esse, aliás, estava sempre onde eu estivesse. Era como se fosse o meu escudeiro. Como nas "fitas": eu era o "rapaz" e ele o "amigo do rapaz". Para além dos que mencionei, havia mais quatro ou cinco que pertenciam ao grupo (os "bons"). Todos os outros eram "bandidos"...
O nosso grupo tinha uma componente singular: uma rapariga. Era a filha do Xã Plantana. Não me recordo de como ela de facto se chamava; aliás, já na altura o pormenor era de somenos ou nenhuma importância, dado que era suficiente para identificá-la a alcunha que usava de "Maria rapaz". Hoje, das suas feições nem vagamente me recordo. Dela, a única imagem que guardo é enquanto jogava o berlinde, agachada, de pernas abertas. Donde que, por ter-me disso inteirado, repetidas vezes - posso jurá-lo sobre o altar - não usava cuecas. Sem elas, foi dela a única e persistente, embora difusa, imagem que o tempo me deixou...
Na rua, jogando o berlinde, saltando em altura ou "às uvas", correndo os "100 metros", eu sei lá... por ali íamos vivendo a vida depois da escola a que nem todos iam. Entretanto, alguma coisa acontecia sempre: ou a decisão de uma "púrria"com os gajos do Alto da Eira ou do Alto Varejão; ou, pura e simplesmente, ir à "chincha", à Quinta do Ti Jaquim Tambra. E assim ia correndo a vida, até que naquela tarde...
O João vinha azinhaga abaixo. Devagar, como sempre.
O patrão dele era o Manuel Torrão, de quem não era de esperar compaixão, pois que também ele começara por marçano - lugar de ingresso na carreira de merceeiro, cometido, em regra, a rapazes entre os 13 e os 15 anos que levavam às costas as compras adquiridas na mercearia a casa dos fregueses, por vezes a grandes distâncias. Arrumadas em cabazes, o peso era quase sempre de tal modo excessivo (por vezes, eram as compras para o mês inteiro: azeite, batatas, bacalhau, cebolas, eu sei lá...) que o marçano nem sequer podia mudar sozinho o cabaz de um ombro para o outro.
Efectuada a entrega de mais um cabaz de compras, o João vinha de regresso. Derreado.
Nós não tínhamos nada contra ele: o João era bom. Apesar de mais velho, mesmo quando por ali passava e lhe fazíamos uma "surriada" (talvez porque a vida já tivesse começado a dobrá-lo...) nunca se agastou; olhando-nos sempre com aqueles olhos mansos de bovino de lavoura: sem revolta, sem azedume sequer. Lá ia, devagar. Ajoujado ao peso do cabaz. Resignado. Pensando, talvez, sabe Deus o quê: talvez a perguntar-se porque brincávamos nós, depois da escola, e ele não; que à escola nunca o tinham mandado. Mandaram-no, sim, os pais, e bem cedo, para a mercearia do Manuel Torrão para “fazer dele um homem", para aprender a trabalhar, a “ganhar a vida".
...Parou. Pôs o cesto vazio no chão, virou-o e sentou-se em cima dele; as costas encostadas à parede. E a nuca também. E, presumo que exausto, fechou os olhos: Foi uma má decisão...
Filhos de operários uns, os "da Azinhaga"; outros do bairro da lata contíguo, filhos de ninguém; éramos um caldo de cultura como tantos outros que depois proliferava em grupos de jovens entre os 15 e os 17 anos, "descendentes" das crianças (que eu e os outros éramos) cujos divertimentos mais inocentes, à noite, eram percorrer a zona furando e cortando os pneus e partindo os vidros e amolgando os capots dos automóveis ou apanhando gatos e esborrachando-lhes a cabeça contra as esquinas.
O João fechou os olhos: Foi uma má decisão... Um de nós aproximou-se e deu-lhe um pontapé. Os outros aplaudiram, gritando apupos, palavrões, aproximando-se e fugindo, em tropel.
O João levantou-se. Peguei num caco de uma bilha de barro quebrada e ameacei: "levas com ela nos cornos" e aproximei-me com o caco na mão. "- Dá lá -" e baixou a cabeça, convencido de que eu não era capaz de o fazer. Enganou-se...
O João ficou parado. Levou a mão à cabeça donde começava a escorrer o sangue. Olhou para mim e para a mão ensanguentada - nunca mais o vou esquecer - com o olhar mais aflito, mais magoado, mais surpreendido e, sobretudo, mais triste como nunca tinha visto, nem mais vi outro na minha vida. Fiquei paralisado. Larguei o caco e julgo que todos se calaram. Sentou-se novamente em cima do cesto e encostou-se outra vez, a mão na cabeça e o sangue a escorrer-lhe pela cara. Parvamente, tirei do bolso o lenço de assoar, aproximei-me devagar do João e entreguei-lho. Sentei-me ao lado dele e, sem saber porquê - foi irreprimível -, comecei a chorar.
Quando chegar a hora da verdade, não sei se Deus vai perdoar-me. Mas sei que, mesmo depois de absolvido - se o vier a ser -, eu não vou nunca perdoar-me. O João, fisicamente forte, quatro ou cinco anos mais velho, podendo facilmente ter-me desancado, não me tocou.
Apesar disso, e talvez por isso, na minha alma ficou uma nódoa negra. Que nunca mais se apagou. E quando, às vezes, sem razão aparente, me lembro do olhar do João, DOI-ME.” 
salvadorprata@netcabo.pt

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