Buba
31 dezembro 2003
  AI BAIÃO BAIÃO - Que vida é a tua? Eduardo Dâmaso diz no Público, - na sequencia do que já antes dissera o Pacheco Pereira no programa sema nal da Sic - que anunciar, publicamente e na presença do interessado, que lhe terá sido perdoada parte da pena imposta pelos tribunais, é violação do direito fundamental de personalidade.
Julgo, antes do mais, que ambos, embora manifestamente bem intencionados, terão talvez falado precipitadamente e, sobretudo, sem legitimidade porque, ao que presumo, não terão sido, para o efeito, regularmente mandatados. Como julgo seria indispensável. evitando assim, o que me parece resultou, ser pior a emenda que o soneto.
Também assisti à cena, incidentalmente, e embora de passagem e sem grande atenção, mentiria se dissesse que também não fiquei surpreendido e não me senti vagamente “incomodado” E, por isso, passada a surpresa, perguntei a mim mesmo se terá havido realmente violação de direitos É que, se o interessado foi voluntariamente ao palco, embora amigavelmente “forçado” por outros espectadores .e não só não se queixou, como colaborou, dando a ideia e a quase certeza, de que estava tudo previamente combinado - onde é que esteve a violação?
Quem sabe se o “choque”que senti não terá sido, somente, o colidir dentro de mim, de ideias feitas gravadas no meu espírito em quadros rígidos, e quantas vezes, afinal, meras mascaradas formais, ridículas -sobretudo nos tribunais - a que todos nós e eu próprio nos acostumamos, sem pensar, a confundir com os próprios princípios e direitos das pessoas? E daí o perguntar-me se o que se passou realmente não terá sido rigorosamente, não a violação de direitos fundamentais do cidadão, mas de “direitos formais” ultrapassados e sem qualquer justificação, a não ser a de dar importância e status de divindade a funcionários de justiça, meros representantes da sociedade e que, no entanto, se arrogam no exercício de funções – cretinos e por vezes burros chapados - como se exercessem direitos divinos que lhes tivessem sido pessoalmente delegados pela divindade?
No fundo o que o Baião fez, com a alacre exuberância apalhaçada e aos pinotes, como lhe é habitual, não terá sido a violação da privacidade de um ex delinquente e do seu direito à intimidade, mas a concretização que ao Estado competia efectivar,–a que fosse conhecido - e tornado público, que estava reabilitado.
E ainda que tal reabilitação tinha sido conseguida mercê do seu esforço pessoal e empenhado de reajustamento social, evidenciado pelo seu comportamento exemplar. E ainda que, como reconhecimento disso - e recompensa - lhe tinha sido encurtada o cumprimento integral da pena?
Ora, o certo é que o que o Baião veio anunciar, com alegria, foi tão somente a plena reintegração social do ex delinquente mercê do seu esforço meritório em tal sentido.
E, julgamos nós, o que a T.V. privada fez, embora sem mérito, porque o fez só e exclusivamente interessada no sensacionalismo da “Caixa” – (e ignorando, como geralmente o faz, quaisquer outras consequências ou “efeitos colaterais”) - deveria ser obrigação legal do Estado faze-lo quando requerida pelo interessado, como concretização de um direito personalizado.
A prática politica instalada de considerar inviolável o direito de esconder, de todos, a verdade mesmo quando a verdade foi errar contra a sociedade de maneira censurável ou criminosa, é uma prática de sacristia e de confessionário que não pode, nem deve, ser seguida, porque é secretista, omite a verdade e defende a hipocrisia, em nome do direito à privacidade Se aceitássemos o principio, aceitaríamos a politica que, na prática, está a ser seguida – a salvaguarda das aparências e da hipocrisia da inocência presumida e do segredo de justiça - com a cumplicidade de nós todos, no caso da Casa Pia.
Expiado o delito, o cidadão pagou a sua divida - redimiu-se - e é saudável que todos saibam ( e do interesse do próprio sujeito, que se saiba) que errou, cumpriu a pena e não deve mais nada Se subsistirem problemas que sejam só os que lhe forem postos pela sua consciência..E aí sim, é que é uma área privada, inviolável. O resto não: - houve um acertar de contas e o devedor tem o direito a que se saiba que já não deve nada e que, portanto, já não há qualquer razão para continuar a ser castigado, perseguido ou descriminado. Tentar ultrapassar esse comportamento persecutório para além do castigo,. escondendo a situação legalmente “ limpa” do cidadão com um sistema de confessionário hipócrita e bafiento de sacristia, a prolongar o castigo, sem razão e, aí sim, com violação dos direitos do Homem depois de redimido, iguais aos que tinha antes de prevaricar e cumprir a pena..O que, pessoalmente, não me parece bem…
Ou será preferível continuar a chamá-lo ao gabinete de um director de cadeia, dar-lhe um documento de alforria, duas palavras de exortação e incentivo à prática do bem e mandá-lo pôr à porta da prisão, muitas vezes com a vida destroçada, sem beira nem beira… E ir depois à procura de emprego dizendo ao empregador que acabou de sair da prisão? E, depois de olhado com desconfiança e recusado vezes sem conto, ir assaltar um Banco ou um velho solitário, num jardim e voltar depois, novamente, para a cadeia onde talvez os companheiros ou os guardas voltem a seviciá-lo - pior que na Casa Pia porque lhe dão porrada e não lhe pagam - mas onde ao menos, o Estado generoso e democrático mandará que lhe dêem uma refeição quente e um catre para dormir?
 
29 dezembro 2003
  alá e a força do destino Alguns simpatizantes e pacientes leitores do BUBA torceram o nariz, desagradados - e de certa maneira desiludidos - com o post, cujo titulo, agora, acima repito e do qual disseram que, por tão mal redigido - e, embora o tenham lido atentamente - nenhum deles tinha percebido nada.
Impõe-se, pois, que, embora já com algum atraso, tente esclarece-lo, ainda que, correndo talvez o risco, de tornar tudo ainda mais confuso.
Depois de 1945, as grandes potências coloniais da Europa aperceberam-se de que a época dos impérios à moda antiga, erguidos e mantidos a tiros de arcabuz, à espadeirada e ao chicote, tinha terminado. Aperceberam-se todas – excepto Portugal – de que continuar nas colónias implicava custos elevados e, cada vez mais, maiores dificuldades.
E foi por isso, e só por isso, que os até aí, donos e senhores das pessoas e da coisa alheia, se foram indo embora… não a benefício da liberdade dos povos que até aí tinham oprimido - movidos por íntimos e súbitos impulsos fraternais, como quiseram hipocritamente fazer crer - mas no seu próprio proveito, pois que, ao abandonarem os territórios, mantiveram, de uma maneira ou outra, nas suas mãos, o controle dos centros do poder e da riqueza dos países “libertados”.
Deram-lhes uma bandeira e auxílios e subsídios - (de garantia de vassalagem e dependência) - e uma percentagem (mínima) nos proveitos extorquidos dos seus próprios recursos - e deram também a cada um, solenemente, um diploma oficial de Estado “independente”.
E, finalmente, inscreveram-nos, a todos, na ONU, como se fossem jovens que, atingida a idade de votar, paternalmente, inscrevessem num caderno eleitoral para serem contados por cabeça, como se fossem gado, sempre e quando houvesse votações; e o seu voto fosse necessário para legitimar os interesses próprios dos seus antigos donos.
Com a ressalva porém de, sempre que o entendessem para si mais vantajoso, poder o voto de um só deles entre os “Grandes” anular a vontade colectiva de todos os outros, na maioria deles, Estados pró-forma, de antigos escravos, ora na situação de favor de nações “independentes”.
O caso do Iraque é a reposição cénica do colonialismo de outros tempos – brutal - e hoje fora do lugar e fora do tempo - em que um louco qualquer se julga D.Quixote, esgrimindo contra moinhos de vento uma panóplia de bombas. Monta um reles e sabujo sendeiro, ex-colonizador, e leva à ilharga, como Sancho Pança, o pirata mais antigo, velhaco, cruel e vingativo.
Em DES CLANS AUX EMPIRES Moret e Davy falam-nos da história de um tempo que passou. A HISTÓRIA, porém, verdadeiramente só agora começou, com a luta do homem pela libertação de si próprio, e de que hoje falam o muro de Sharon e os suicidas palestinianos. E de que também falava Henry Pirenne em Maomet et Charlemagne.
DES EMPIRES AUX CLANS será daqui para o futuro, a bíblia da nova caminhada, do regresso do homem às origens, pelo seu próprio pé.
O que restar do Iraque vai ser dividido pelos iraquianos, em pequenas partes, e vão ficar, talvez também, teoricamente, independentes e livres, tal como a outros sucedeu.
E enquanto os americanos estiverem no Iraque irão lá, volta e meia, os grandes (da destroçada União Europeia,) ao poço do Bush, como quem vai à bomba, encher o depósito dos carros, uns utilitários e outros de alta cilindrada.
Só que o Saddam, mesmo que os americanos o matem ou mandem matar, vai continuar também a matar americanos.
E, quando, mais tarde ou mais cedo, as armas de destruição maciça aparecerem, finalmente, não no Iraque, mas nos Estados Unidos, começarão, talvez também eles próprios a tornar-se independentes.
Tal como a sofisticada Linha Maginot em 1939 foi ultrapassada pelos exércitos alemães, aerotransportados, também os porta-aviões e as esquadras poderosas, são, já hoje, relíquias do passado. A nova forma irreversível de fazer a guerra passou a ser o terrorismo - matar indiscriminadamente - com bombas artesanais, armas automáticas, morteiros, foguetões e fanáticos suicidas.
É a hora das multidões tribais e citadinas não urbanizadas, mas militarmente organizadas, e é também a hora das crenças e do fanatismo irracional. É com elas que é mister as grandes potencias começarem a entender-se, deixando que os povos se assumam e vivam em paz as suas próprias vidas.
Bush ainda não percebeu e já não vai perceber - e o Blair, parece que também não - que não é possível matar mosquitos a tiros de canhão.
Julgo que - quando tudo chegar ao fim - do Iraque actual – para além do enclave euro anglo americano de petróleos - já talvez só restem pequenos Iraques independentes ou talvez já não reste nenhum.
O que porém, não impede que, mais tarde ou mais cedo - só Deus sabe quando - o Iraque não volte a ser novamente “libertado” por outro sonhador demente, de qualquer outro NOVO IMPÉRIO, talvez ORIENTAL, onde os Deuses são outros e é também diferente a FORÇA DO DESTINO.
 
14 dezembro 2003
  Bush Soube, e não te lamento, pelo azar que tiveste ao encontrares o Saddam, nem felicito o Saddam pela sorte que teve ao fazer-se encontrado. Soube também - é o que consta – que, na Casa Branca, a coisa ficou preta para ti, confrontado com uns quantos soltando gritos assassinos de vingança e por alguns outros, na Europa, balbuciando palavras de prudência. No aperto em que estás, dou-te - e embora o não mereças - um conselho: parte aos bocados a batata quente e oferece-os aos teus sócios no petróleo e nas empreitadas do Iraque como prendas de Natal.
E, como contrapartida do conselho que te deixo, peço-te, agora que a guerra vai começar a sério, mandes ao Durão que deixe regressar a Portugal, para junto das famílias - e também como prenda de Natal - os militares da Guarda que desde Abril de 74, no Carmo, deixou de ser segurança politica de governos passando a ser tão só Nacional e Republicana.
 
09 dezembro 2003
  Sangue Bom Diz o Rui que quando, há umas semanas, o Bush foi a Inglaterra e levou, para além dos seus médicos e outros objectos de uso pessoal, uns litros de sangue americano, terá sido para o caso de ter necessidade de ser transfusionado… e sobretudo por outro receio - como diz: «já viram o que era, se ele acordasse, após uma transfusão, transformado num coninhas europeu?»
De qualquer modo eu penso, Rui, que tendo você certa razão, não terá sido só isso que diz. Aliás: não acredito que o Bush tenha medo de atentados, de transfusões ou seja do que for… basta reparar naquele andar gingão e peito à vaga, misto de marujo e de fadista, para ver que é homem destemido, como já provou quando foi desafiado para duelo pelo Saddam. E, se é certo que não sabemos o que é que ele lhe terá dito, o que sabemos, de concreto, é que o Saddam terá ficado sem pinta de sangue e tão assustado que fugiu espavorido, e se escondeu de tal maneira que nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima… consta, até, que o Bush, dada a sua natureza de vampiro, o terá ameaçado de lhe beber o sangue, como mata-bicho mesmo antes do pequeno almoço... Portanto, não é o medo de atentados e de transfusões que o leva a andar com o saco do sangue às costas, pela Inglaterra fora, e ir em tal preparo cumprimentar a Rainha… até porque essa «estória» de terrorismo, ele (e o Rumsfeld) já disseram - e toda a gente sabe que é verdade -, está a correr muito bem e praticamente ultrapassada; não só pela expectativa da captura - há meses iminente - do Saddam, mas sobretudo, agora, com o aumento, esmagador, do potencial antiterrorista trazido pelos militares da Guarda - dita Nacional - Republicana, aliciados como voluntários e pagos a peso de ouro - como se fossem mercenários - para irem para o Iraque, servir de escudos e de guarda-costas dos americanos.
Por isso acho que o sangue que o Bush levou para Inglaterra terá sido não para usar, mas só para inglês ver que Bush não fica atrás dos heróis nazis das SS que não aceitavam transfusões de sangue, nem mesmo de brancos que não fossem arianos. Também ele não aceita que lhe metam nas veias, se for mesmo necessário, sangue, não importa se de grupo sanguíneo compatível, de qualquer coninhas europeu, mas só sangue americano, do que ele traz na bagagem e do mesmo grupo sanguinário do Rumsfeld e dos restantes malandrins da sua laia.
E até se compreende que com os Nazis e o Bush seja assim… é que - temos que concordar - de outro modo, à balda, também não podia ser… era como por exemplo, entre nós, Sua Alteza, o pretendente ao trono, deixar-se transfusionar não com sangue azul, de pessoas da nobreza e de condição - de preferência residentes também, em zonas nobres da capital - mas com sangue vermelho, plebeu, reles, de malta drogada e com sida do Casal Ventoso, ou com sangue de putas ordinárias, sifilíticas do Arco Cego ou de Xabregas… Ná, nessa nem eu embarcava. Porra!... senão, a certa altura, você está a ver a chungaria que era...? uma misturada do caraças! E o gajo, ao acordar, da transfusão, transfundido, a correr o risco de também acabar os dias, na má «vida» e a «dar nele», no Intendente, por um cálice de aguardente depois da duas da manhã. O Bush não vai nisso e com razão, temos que concordar.
No entanto e ainda sobre este problema e por via de informação confidencial - que, obviamente, não posso revelar, por estar em segredo de justiça, que certamente um dia há-de fazer-se - veio ao meu conhecimento que a CIA, ao saber do caso do sangue, teria informado o Bush que, em Inglaterra, no Inverno, existiam, escondidas algures no subsolo e na atmosfera, correntes de ar de destruição massiva do calor à superfície, pelo que, para se prevenir, não só do frio intenso, mas também de qualquer hemorragia, o melhor seria, em vez do scotch tradicional dos ingleses e das transfusões, dado o seu pendor de vampiro sedento, ir emborcando, a titulo preventivo, de vez em quando, umas boas goladas de sangue, mas do bom, de preferência de crianças assassinadas em Bagdad e no Afeganistão pelos heróicos soldados do mais poderoso exercito do mundo.
Por último deixe-me dizer-lhe que concordo consigo quando diz - e eu, se me permite, acrescento - «já viram o que era, se ele acordasse, após uma transfusão, transformado num coninhas dum europeu, como o Durão?»
E agora e antes ainda de me despedir, e sobre o seu post Menos é Mais deixe que lhe diga: quanto às Constituições, do que menos dúvidas me restam é que, sempre que a «tropa» (à sorte) intervém - a pôr os políticos na ordem - lhes imprime sempre, a todas elas, duas marcas, a saber: por um lado a do seu desembaraço e eficácia - a letra D, do Desenrascanço; e, por outro, a do seu vincado pendor ideológico: «Todos à molhada e fé em Deus».
Pelo que, quanto a mais referências ao papel do acaso nas nossas Constituições me parecem desnecessárias pela simples razão de que elas próprias são exemplo dele. Como é evidente. Um abraço a todos e um muito especial ao Daniel. 
02 dezembro 2003
  Casa Nostra Desta vez o guarda costeiro d’A Praia deixou-se, certamente, adormecer absorto, minado pelo torpor de tão intimo desgosto como o causado pela derrota, escandalosa, do seu clube bem amado que não conseguiu acertar uma sequer, para turco ver… e o perigo aí está: um corsário bem armado, a navegar junto à costa, a todo o pano e trazendo a bordo, entre os tripulantes, um puro, por puro engano; e, se é certo que não existe o perigo imediato de um ataque violento por parte do corsário, há todavia um perigo maior, e talvez mais danoso: o de forte agravamento da poluição ambiental. Mas, estando o mal já feito e sem remédio, o que importa agora, p’ra evitar um mal maior, é avisar a malta… Zeca, grita o alerta, que os sinos já tocam a rebate. E já se topa, lá dentro, a corja, pela janela da vigia. O que faz falta, Zeca, é avisar a malta. Grita, Zeca, grita que o pão já sabe a merda… e canta, canta bem alto, para que todos oiçam: o que faz falta é avisar a malta. 
01 dezembro 2003
  Agradecimento a Ana Cardoso, Júlia Matos Silva, Almacava, Joana Gorjão Henriques, Alessandra Giovana Borges e André Figueiredo.
Dirigidas ao Buba, directa ou indirectamente, têm-me chegado palavras de simpatia ou de incitamento de pessoas que não conheço, como as que acima mencionei. Peço desculpa pelo facto de não ter respondido a todos há mais tempo; e, na impossibilidade de oferecer flores às senhoras, como era de minha obrigação, ofereço-lhes, sensibilizado, o que tenho mais à mão. Um breve apontamento, de férias que, ao correr da pena, escrevi, quando um dia, ao fim da manhã, vindo da praia, cheguei a casa, em Altura, no Algarve. Sei que não vão gostar… eu sei que não é bem isto que vocês gostam de me ler. Desculpem mas de momento foi o que me veio à mão. Para os compensar reproduzo um texto que me foi mandado pela Júlia Matos Silva que era certamente também o que tinha, de momento - só dela -, para me oferecer. Dando-o a conhecer aos outros que também me escreveram, será, talvez, a melhor forma de agradecer a todos.
Esclareço a Almacava que Buba é o nome do cachorro da minha filha Rosário, temporariamente – espero - a trabalhar fora do país… O Buba a certa altura resolveu fazer um blogue, e convidou-me a vir para junto dele… E eu vim. Só isso: amizade. Pura.
Seguem-se os dois textos: o meu - O CÃO DE ALTURA - e A GUERRA, que me foi enviado pela Júlia. A todos mais uma vez muito obrigado, pedindo que não voltem a escrever-me, porque responder–lhes é, para mim, muito complicado. Um abraço a todos.
O CÃO (DE ALTURA).
Vinha da praia. Pelas dunas. Atrás de mim alguém falava alto. Talvez zangado: "Agora é que te lembraste dessa merda toda, até da porra do cão". "Quando chegarmos a Mem-Martins, eu digo-te para onde é que vai o cão."
Parei. Olhei para trás, nada de anormal. Era um grupo típico, adentro do "clássico": o homem com o chapéu de sol de praia, cadeiras e mais a tralha do costume - sacos, porcarias... Era já velho. Mais atrás a mulher, a avó clássica, "à portuguesa", deduzi: um miúdo ao colo, mais dois a pé. Caminhando todos, como dizia a minha mãe, aos catrapós. A areia derretia-se ao sol e fritava-lhes os pés. A velha arrastava-se, derreada com o trambolho do neto ao colo de mistura com sacos das fraldas, biberons e outras merdas próprias de miúdos de mama como este - talvez órfão, pensei eu, porque da mãe nem sombras. Mas lá vinha tudo em fila, uns atrás dos outros. A "porra do cão" dava sacões na trela, arrastando a velha, para alcançar o velho sem recear das ameaças da sorte que o esperava quando chegasse a Mem-Martins. Olhei-o e pensei, entre dentes: "é parvo. Não sabe que, neste mundo, não se pode ser cão. E não conhece, certamente, a história do arrais que deixou cair o cachimbo ao mar."
Eu conto: Era uma vez um arrais. Um arrais é um homem do mar, curtido, cachimbo nos dentes. É o mestre da embarcação. Das embarcações de pesca pequenas: "bateiras" e coisas do género. Um golpe de vento traiçoeiro. Desequilibra-se o arrais e... Santo António: o arrais deixou cair o cachimbo ao mar. Verdadeiramente só outro arrais pode entender o que isto quer dizer: o cachimbo e o arrais formam um todo inseparável. Um arrais sem cachimbo é inconcebível, é como uma diva sem voz ou um cornudo sem cornos.
O arrais olhou à volta. E à volta só viu o sota. O sota - explico - é outro marítimo muito menos graduado. O arrais explodiu: "Seu filho da puta. Por sua causa caiu-me o cachimbo ao mar". E acompanhou o impropério com um murro na cara do desgraçado. Era assim,antigamente. E julgo que continua a ser. O sota olhou à volta e aconteceu que o ser vivo que lhe estava mais de perto era o cão. Em todos os barcos de pesca, sobretudo nos pequenos, há, em regra, como sabem, um cão. Cão que, na circunstância, alheio ao drama do arrais, olhava o sota sorridente. E com alguma razão. Dado que o sota era, de facto, o tripulante que socialmente lhe estava mais próximo. Mas o sorriso gelou em ganido quando, sem que percebesse porquê, o sota lhe jogou um pontapé enquanto, por sua vez, berrava: "Filho da puta, por tua causa é que o arrais deixou cair o cachimbo ao mar."
Ao ouvir o homem/ pisando nas dunas/vindo da praia/ a caminho de casa/ invectivando a pobre da velha/ lembrei-me da história do arrais e do que estaria o homem a congeminar ,no seu íntimo malvado, para fazer ao bicho quando chegasse a Mem-Martins.
Parei. Deixei que me ultrapassassem: ele, a velha, os putos, o cão, toda aquela fraldiquice, em pinceladas de vida vivida, em que, de todos, incluídos os putos - germes inocentes de futuros velhos malvados - só se safava o cão, porque, de todos - na sua fatalidade –, só ele não ia mudar; nascido embora para um futuro sem esperança, iria continuar sempre a ser cão. Os putos, não. Iam crescer, tornar-se adultos... E, depois, iam envelhecer… e iam, depois ainda, quando chegasse a sua vez, descarregar num cão qualquer, em Mem-Martins, tal qual o ia fazer o seu avô, quando o cachimbo lhes caísse, ao mar revolto da vida de fraldiquice, que, quando nasceram, já vinham condenados a viver.

A GUERRA, de Júlia Matos Silva (Lisboa, 5-4-03)
("Choque e pavor", Mr. Bush, de choque e pavor se morre...)
No preciso momento trágico em que as armas de fogo delirantes
romperam desbragadas como um rio direito quando, avassalador,
se alarga no mar dobrado das sirenes e na fúria dos olhos marejados
...eu vi as lágrimas amargas de todas as vítimas das guerras.
Não queria que as minhas mãos fossem forçadas a manusear
aquela câmara lenta, que me arrebatou os olhos, atrevida e feroz,
e estivessem dispostas a vampirizar o silêncio do choro dos mortos
para entender os signos e códigos de tantas palavras roubadas.
Não queria desprender os olhos para esquecer ou fingir não saber
que a minha mente ouve o ruído tresloucado de vozes que matam
e desvenda a ruína de palavras outrora tão mágicas e eloquentes,
as mesmas que, nas horas exaltantes do meu tempo sem tempo
mesmo quando o mundo corria a contragosto, revolto e frágil –
tinham o coração nas mãos e o princípio da liberdade no horizonte.
Não queria perceber que os lábios dos que defendem esta guerra
fingindo o teatro da consolação infrutífera e o augúrio de futuros risonhos
desprezam as marcas do desgosto estampado no rasto das multidões
e vilipendiam o verbo dos que protestam espalhados pelos continentes.
Não queria que me fosse desvendado o limite da blasfémia triunfante:
guerra limpa ou suja, fogo amigo, danos colaterais e bombas cirúrgicas,
seis dias, seis semanas, seis meses, mas certamente menos do que isso...
- a bússola imoral de um atoleiro de palavras ímpias e esventradas.
Eu queria ter ficado apenas com a beleza de uma eterna paz
parada no estado puro de um retrato pousado em sossego,
sentada ao longe, banhada pela luz de uma homenagem feliz
que evocasse a liberdade e a evanescência pujante do meu mundo.
Eu queria ter ficado assim, aninhada nas horas do meu tempo perdido,
viva e pensante, escondida na dimensão simbólica de uma era heróica,
acreditando que lá longe existe um tempo mágico de outro futuro,
onde talvez vivam por perto os companheiros e heróis de sempre.
Havemos de morrer todos, Mr. Bush, atolados nas lágrimas amargas desta era...
Quando, em nome de Deus, Mr. Bush, o seu balbucio tresloucado e rouco
e esse olhar vidrado e indigente traçam o mapa escabroso dos interesses,
cai sobre nós o choque e o pavor de uma chuva ácida e rasante de braseiros,
- mil presságios de aventuras messiânicas e imperiais, aves de mau agouro.
E a guerra, a singrar no tempo, agora no Iraque, amanhã no mundo inteiro...
Em cada dia que passa, ficamos prisioneiros de nomes duvidosos e indizíveis
(Bush, Rumsfeld, Rice, Cheney, Wolfowitz, Powell, Perle… e outros tais)
e, enredados no recorte alucinado dos seus actos e engenhos devassos e cruéis
- essas mãos de carrascos que decretam as sebes divisórias dos países -
havemos de ver o mundo a resvalar nas dores e convulsões de outras barbáries!
Hão-de queimar-nos as lágrimas amargas das multidões esquartejadas,
com o sabor de quem sabe que as flores murcham e as nuvens se fecham
para que os astros, os deuses, os ventos e os homens desgovernados
nos roubem a pureza dos dias e rasguem as palavras que trazemos no peito,
antes que os anjos-da-guarda, ditosos, nos levem para o outro lado do espelho. 
salvadorprata@netcabo.pt

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