Buba
10 maio 2004
  Advertência O post que se segue vai ser de todos quantos tenho escrito talvez o mais polémico. E para além do mais pela terminologia usada. Donde, sobretudo por isso, a razão desta advertência, que não é, nem tinha que ser, uma justificação. O que não impede que o respeito que devo às pessoas que, embora não as conhecendo, normalmente vêm ler o que escrevo, imponha as advirta de que pessoalmente também eu considero imprópria e chocante a linguagem utilizada, mas que o foi a benefício de um valor que também cultivo, sem cedência às consequências: a verdade. Que não escolhe formas castigadas de dizer quando a amargura acontece, atingindo o ser humano num dos seus mais nobres sentimentos: a amizade. (Salvador Prata)

Família
Quando o João morreu, fui à igreja. A intenção era ir ao funeral. Cá fora, esperando a saída do caixão, estava muita gente, cochichando, com o ar compungido do costume… Misturadas com as outras pessoas, estavam também as filhas do João e do Fernando.
Caminhei para elas e, inesperadamente, quando ia abraçá-las, emocionei-me, não pude conter-me, e gritei um palavrão: «Caralho»...
A filha do Fernando agarrou-se a mim e disse: «é assim mesmo… porra!»
As palavras dela foram como que uma prece a acompanhar o meu Te Deum: e, ao ouvi-las, senti que a minha oração tinha chegado ao céu...
Depois vim-me embora, quase resignado e sentindo-me estranhamente tranquilo, quase indiferente, como se Deus tivesse posto, para me confortar, um braço sobre os meus ombros e tivesse vindo acompanhar-me à porta da igreja, dizendo-me também ao ouvido, quase em segredo: é assim mesmo… porra!

Pedro, o que o avô Salvador tentou dizer-te - a ti e aos teus irmãos - ao contar-te um episódio da sua vida é que a Família não é só, nem é sobretudo, o grau de parentesco, os nomes idiotas que os padrinhos nos dão, os apelidos, títulos, brasões ou o património que herdamos, ou não, mercê das raízes do sangue, essa imundície que é o esperma que os homens esguicham, incontinentes, para dentro do útero das mulheres, como animais, na prática de um acto instintivo, reflexo, compulsivo, e a que uns humanóides, primários, ao nível dos bácoros - ou pior - chamam fazer amor.
Não sei, ninguém saberá, onde estão localizados (e não me parece que estejam no sangue) os sentimentos do amor e da amizade; mas tenho a certeza de que é só quando essas raízes, da alma das pessoas, se entrelaçam - e não pela mistura dos sangues, pela via da fornicação - que nasce verdadeiramente a família.
Prevejo que vocês dentro de alguns anos irão interrogar-se: mas se o avô Salvador por um lado secundarizava a lex sanguinis (por ter como raiz um acto de sujeição - a penetração - e afirmação de pretensa superioridade por parte do homem, agravado por vezes o acto por ser praticado com violação dos direitos de personalidade da mulher) e por outro lado escamoteava as leis de Mendel, por que é que ele pensava que nós, os seus bisnetos, e ele pertencíamos à mesma familia? Respondo-vos antecipadamente dando-vos a conhecer, no essencial, um texto em verso branco, lapidar, que o Pedro Lomba escreveu no Fora do Mundo:
“(...) Depois aproximam-se uma mulher e uma rapariga pequena que se juntam a eles como se nada fosse. Os quatro acabam a conversar (…)”
Eu, por minha parte, comento: é assim mesmo… porra! Vocês, por vossa parte, dirão o que lhes parecer quando chegar a altura.

Champallimaud
Acabo de saber que morreu o Sommer.
A notícia voltou a fazer-me recordar os meus dois primeiros anos do liceu, no Académico. De entre os poucos nomes de alunos de que me recordo estão: o Gambôa, de quem já falei no Buba, o Urmat, o Clemente Rogeiro e o Sommer. Os três primeiros eram meus grandes amigos. O Sommer, andava por lá…
O Urmat, depois que saí do Académico para o Gil, nunca mais soube dele, e, quanto ao Rogeiro, vim a encontrá-lo muitos anos depois, quando o Marcelo o nomeou Ministro da Saúde, pouco tempo antes do 25 de Abril. Aconteceu assim: Fazendo parte da direcção de um serviço nacional do Ministério, fui cumprimentá-lo ao gabinete e, ao dirigir-me a ele, de mão estendida e saudando-o protocolarmente « - Sr. Ministro…», o Clemente Rogeiro, que eu não via, nem ele me via a mim, há cerca de 40 anos, olhou-me, semicerrou os olhos e disse: « - tu não és o Prata?» «Sou». Abraçámo-nos. Com força. Não dissemos mais nada. E iniciámos o despacho - a doer -como se não nos conhecessemos de parte nenhuma. O Rogeiro tinha sido, com o Gambôa e o Urmat no Académico, um dos meus melhores amigos, mas eramos diferentes numa coisa: o Rogeiro era bom aluno e sossegado, e eu… bem, eu explico. O Académico tinha 705 alunos e o meu número era precisamente o 705. E, tal como nos liceus, havia um quadro de honra onde eram inscritos os alunos muito bons, os bons, os suficientes, os maus e os muito maus. Os muito maus eram cinco. E eu, não me recordo se pelo facto de o meu nome começar por S ou se por ser de facto a classificação correcta, o certo é que o meu nome aparecia como o último, o último dos péssimos. Quem consultasse o quadro de honra e quisesse inteirar-se da minha classificação, não tinha que errar: era o primeiro da pauta. A contar do fim. Exactamente por isso, fiz sempre ponto de honra em defender o lugar. Com diligência, competência e o consenso dos 704 condiscípulos dos quais, por tal motivo (por ser entre os péssimos o pior dos péssimos), era de todos conhecido e muito popular.
Nesse tempo o Académico, no nº14, creio, da Rua Álvaro Coutinho, era misto e tinha um pátio interior, para o recreio das raparigas, e uma cerca ao ar livre, em terra batida, para os rapazes; e era precisamente na cerca ou no jardim em frente, junto à Igreja, que se davam, em regra, os meus encontros, avulsos e intermitentes, com os meus amigos: o Gambôa Vaz, o Urmat e o Clemente Rogeiro.
Do Sommer desse tempo guardo a recordação do que pode chamar-se um gajo porreiro e amigo do seu amigo. Um pouco mais velho do que nós os três, alto, magro, esgrouviado, a movimentar-se sempre em largas passadas das altíssimas pernas; e, quanto à classificação no quadro de honra, embora não possa jurá-lo, a minha impressão, ressalvada a distância no tempo, é que também não seria uma grande malha. Tinha porém já nele, julgo, ainda muito novito, o gérmen do organizador. Recordo-me de uma vez em que o Sommer - sabendo que eu, embora peso pluma, era «reguila» e «treinava» diariamente o murro com o Gambôa - organizou um combate de boxe entre mim e outro gajo muito mais velho, um «calmeirão» - peso pesado - a quem eu comecei logo por dar dois murros e a seguir o grandalhão jogou uma patada que eu não esquivei a tempo, apanhei-a em cheio no focinho como se fosse o coice duma mula e fiquei, praticamente, a dormir… e foi o Sommer que me pegou ao colo, me levou para fora do «ringue» e me ajudou a recuperar. Depois saí do Académico e nunca mais o vi.
A certa altura voltei a ter notícias dele, por vezes diariamente, quando os jornais em grandes parangonas noticiavam (como agora com o processo Casa Pia) o processo da herança Sommer; e as faenas no tribunal em que o Zenha, como advogado, brilhava a grande altura, se tornou famoso e sacava o dele (ora, não…). Por essa altura o Sommer já tinha sido crismado como o «Champas». Curiosamente o Zenha era também (com o Orlando de Carvalho e o Antunes Varela) do meu tempo em Coimbra, nos anos 40. O Orlando e o Zenha já morreram há uns anos. Agora morreu o Sommer. Preferia não ter sabido que morreu. Outros mais, da mesma geração, também já morreram ou irão morrer dentro em pouco. Como eu. A vida «é assim mesmo… porra!»

O Martinho
São vinte horas do dia 9. Acabo de receber um telefonema da mulher do Martinho. Pediu-me para passar a minha mulher. Não quis dar-me a notícia. Disse que o Martinho morreu. O Martinho era meu colega de turma no Gil e um grande e sincero amigo. Quero que se foda esta merda toda. Caralho! É assim mesmo… porra! 
salvadorprata@netcabo.pt

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