Buba
18 junho 2005
  Buba

Embora já “entrado” na idade, o Buba continua a ser um cão muito inteligente e, talvez por isso mesmo, um bocado “distraído”: por vezes, vejo bem que está a perceber o que eu digo mas faz-se “desentendido”… O sujeito, se tivesse, como acontece com outros cães, forma e figura humana, podia ser um personagem importante, chefe dum sindicato de médicos Sim, de magistrados assim-assim ou outra merda qualquer do mesmo do género.
Desde ainda há pouco tempo, saiu-se com uma nova: por duas ou três vezes, à sorrelfa, resolveu pegar entre dentes um osso do prato e levá-lo para o comer tranquilamente, como sobremesa, na cama, uma alcofa onde dorme e, refastelado, repousa das fadigas…
Quando dei pela “coisa” fiquei danado e ameacei-o de lhe partir o osso nos cornos se voltasse a fazer a graça. Depois, vencendo o nojo - e protegendo os dedos com um guardanapo de papel -, peguei no osso como se fosse um dejecto e voltei a pô-lo no prato. Continuei, entretanto, a “rezar-lhe o sermão” que meteu novas ameaças, insultos, palavrões – em suma, deu para ele, que entende bem o meu asneiredo, perceber que eu tinha ficado mesmo chateado…
Ontem, quando cheguei a casa, fiquei surpreendido com as sonoras e gostosas gargalhadas que estavam a ser dadas em dueto pela minha mulher e pela rapariga que ajuda ao arrumo da casa. Esta, então, em alta grita, asseverava: “Eu se não visse nem acreditava”... Contou-me, depois, minha mulher que, a certa altura, deu com o “artista” reclinado na cama onde, qual patrício romano, espeliçava, deleitado, tanto quanto aparentava, um suculento osso de vitela…
Minha mulher deu pelo despautério precisamente no momento em que eu metia a chave à porta e alertou: “Buba! Ai agora!… Vem aí o avô!…”. E então aconteceu o inimaginável: o Buba rapidamente pegou no osso entre os dentes e “ó linhas…” – até voava em direcção à varanda a repor o osso no prato… Depois, disfarçadamente, como se não fosse nada com ele, dirigiu-se para a porta ao meu encontro, a dar ao rabo e a dar-me ao mesmo tempo, como de costume, as boas-vindas… Daí o festival de risota que havia quando cheguei.
O “número” de esperteza do Buba fez-me recordar uma outra cena bem diferente que protagonizei com outro cão, já lá vão muitos anos: não uma cena de espertezas mas uma sacanice reles, uma verdadeira canalhice, que, sempre que a recordo, me amargura do mal sem remédio de não ter feito o que devia fazer. Eu conto:

Na “Quinta”, quase todos os miúdos tinham cão. O meu cão era cadela e chamava-se Estrela. À hora de jantar, lá em baixo no quintal onde tinha a casota, ladrava a bom ladrar, a lembrar-me de que tinha fome e estava à minha espera. Eu ia lá abaixo, deixava-lhe a comida e vinha-me embora.
Por vezes, quando estava com o cio, partia a corrente e fugia, Quinta acima, corria até mais ninguém a ver. Reaparecia passados alguns dias, vinha prenha: trazia dentro da barriga sete ou oito filhos, antecipadamente condenados à morte ou por afogamento pela sacanagem da Quinta, ou à porrada pelos gajos da “Carroça dos Cães”.
Durante as férias grandes, de Junho a Setembro, íamos para a praia, oito ou nove famílias residentes na Azinhaga, gente de trabalho e de poucos recursos. Juntos construíram um acampamento numa zona de acácias, deserta, junto a uma fábrica de explosivos, entre a Trafaria e a Cova do Vapor. No final da obra escreveram numa tabuleta o nome do acampamento -“Pátio da Saudade” - e pregaram-na, como se fosse um selo lacrado, na cancela da entrada, construída com bocados de madeira apanhados na praia.
As férias, nesses anos – os quatro ou cinco que duraram – foram, talvez, o melhor bocado dos princípios da minha juventude, e guardo desse período algumas das recordações mais fortes, mais humanas e mais hilariantes da minha vida… Era, por vezes, de um gajo se “amandar” para o chão e esfarrapar-se todo…
Algumas das barracas eram feitas de lonas de má qualidade, outras de pedaços de velas usadas por pescadores; outras, ainda, eram de retalhos de lonas muito boas, roubadas: era o caso do “Ti Manel Sarradura” que, “feito” com a Polícia Marítima, as tinha gamado de cargas de navios, juntamente com tabaco, rádios, bebidas, o que calhava…
A “minha” barraca era a mais ranhosa, parecia uma barraca de ciganos, feita de bocados de serapilheira pintados - cenários antigos, meios podres, do teatro S. Luís que o “Patrão Ramos” tinha dado ao meu pai… e a cobertura não tinha fileira, quer dizer, o telhado da barraca era plano, de modo que em Setembro, quando vinham as primeiras chuvadas, a água não escorria pelas “paredes” da tenda, nada disso: empoçava no “telhado” e depois ia escorrendo ou caindo em gotas e esguichos como se fosse um chuveiro… e, quando a chuva era muita, então é que era bonito, como uma barragem quando rebenta: água por todos os lados… e o mais giro era a malta deitada nos catres, muito baixos quase ao nível da areia, e a água a cair-nos por cima e a fazer poças por baixo…
Mas o melhor, mesmo o melhor de tudo - no meio da confusão e daquela merda toda –, era ouvir a “banda sonora”, os comentários bem dispostos, felizes, daquela malta - isso sim é que era de morte: enquanto os “velhos” (na casa dos trinta) abriam os guarda-chuvas dentro das barracas, os putos vinham cá para fora “tomar banho”… Era porreiro. A chuva chegava quase sempre já nos fins de Setembro, porque em Julho e Agosto, em regra e sobretudo à noite, era um calor infernal dentro das barracas e por vezes, de repente - parece que estava tudo combinado - começava toda a gente a falar alto, a amandar bocas, a dar piadas, a contar anedotas picantes e a rir-se, muito divertida. Alguns casais aproveitavam para “brincar aos namorados” – percebia-se pela gemideira das mulheres… O prato forte era sempre uma delas que reagia mal ao “castigo” e, mesmo com vontade de “brincar” (éramos putos mas percebíamos bem que a gaja até lhe tremia a voz), dava cangocha, fazia-se cara (um clássico…). O marido era um gajo que tinha a alcunha de “meia venta” (tinha lábio leporino), era fodilhãozito… e, quando chovia, ainda era pior: talvez atesoado pela tempestade e de “pau feito” pelos gemidos e “lamentos” das vizinhas, o “meia venta” protestava alto: “Ó minha Joca, eu ainda não te toquei…”. Este número, sempre o mesmo - o gajo a ir atrás dela de pichota em punho, e a gaja a protestar e entretanto a pôr-se a jeito -, e, sobretudo, os comentários da maralha, era de partir a moca…

Depois de almoço, eu e a Estrela – o sol queimava – dávamos o passeio do costume: calcorreando o areal escaldante ou chapinhando na água até ao bico da Areia, a ver o oceano e a respirar na cara a brisa refrescante que vinha do mar.
Os anos passaram. Fui para Coimbra e, entretanto, o meu pai tinha levado a Estrela para o Arsenal do Alfeite. Fui lá vê-la uma vez que vim a casa, nas férias.

…Estava a uma distância de trinta ou quarenta metros, imóvel, sentada na muralha. Contemplava, ao que parecia, as águas do rio e o movimento das embarcações. Aproximei-me e chamei-a. Nem sequer voltou a cabeça. Aproximei-me mais e chamei-a outra vez. Não reagiu. Estava surda e também não via; estava cega.
Sentei-me na muralha junto dela e abracei-a como antigamente e, junto ao ouvido, quase em segredo, sussurrei: “Estrela”. Tremeu, o coração bateu mais forte e urinou-se toda. Encostada a mim como se quisesse também abraçar-me, senti que ela me queria dizer, me dizia, que tinha estado todos aqueles anos à minha espera… que sabia que eu havia de vir para irmos, como antigamente, ao bico da areia lavar a cara na brisa fresca que vinha do mar, às corridas, de mistura com risos e latidos, felizes, só os dois… Acariciei-lhe as orelhas como ela gostava… E, já novamente a 30 ou 40 metros, parei e olhei para vê-la uma última vez. Estava também parada onde a deixei… senti o coração bater mais forte, repassado de amargura. Ela sabia que eu nunca mais viria abraçá-la, nem iria levá-la nunca mais ao bico da areia a sentir o cheiro forte do iodo que a brisa trazia do mar… Era uma canalhice sem nome deixá-la ali, cega, incontinente, sozinha... Comecei a andar, não me voltei mais. Não fui capaz. Tive vergonha.

Outro dia, pelas duas, três da madrugada, apanhei um filme na TV. Ia no meio: um gajo qualquer caminhava pela linha e, em direcção a ele, em alta velocidade, aproximava-se um comboio e, no silêncio da noite, ouvia-se o raspar do silvo rouco da sirene… Logo de seguida, quase de repente, o comboio chegou e espatifou o homem aos bocados.
Quando o filme terminou, fui-me deitar e tive um sonho em que o homem da linha era eu. Não senti o choque. Não sei se morri ou não. Mas o certo é que voei, pulverizado, desfeito, polvilhando o ar à frente do comboio, como se fosse uma nuvem de partículas de pó. Olhei: ao meu lado, sentada, estava a Estrela a uivar – chamava por mim – como se eu, realmente, tivesse morrido… Levantei-me. O sol estava também a levantar-se. Saí de casa em direcção ao Alfeite, ia ter com ela, tinha decidido ir buscá-la, trazê-la comigo…
Quando lá cheguei, olhei a muralha. Não a vi. Fui lá até onde estava da primeira vez. Olhei à volta, olhei o sítio onde ela, cega, incontinente, sozinha, ano após ano tinha esperado por mim. Voltei a olhar à volta. Voltei a olhar o rio… e, finalmente, vi-a lá em baixo, na água, a boiar, junto à muralha… Sabendo que eu não vinha mais, desistiu de esperar.
Apeteceu-me atirar-me também lá para baixo, esmagar os cornos na muralha e ficar a boiar, abraçado a ela… 
salvadorprata@netcabo.pt

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