Buba
19 março 2006
  E-mail aberto (Ao blogoarquipélago, com vista ao DR. JOSÉ MEDEIROS FERREIRA e ao DR.MÁRIO SOARES)

Acabo de saber pela Praia que o ILHAS e o MUU convidaram alguns bloguistas a ir aos Açores, entre os quais o Dr. José Medeiros Ferreira que conheci já lá vão uns bons anos, em Cacela Velha, em casa de um amigo comum, o Eduardo Paz Ferreira.
Recordo-me que logo após as apresentações da praxe, e ainda não tinha passado uma hora, já as coisas entre nós corriam como se nos conhecêssemos há anos e fôssemos velhos amigos, E como eu tinha concluído o curso de Ciências Histórico–Filosóficas em Coimbra - embora o tivesse começado em Lisboa -, isso terá contribuído para a “boa refrega” que logo tivemos... tendo eu tido então a oportunidade de apreciar, ao vivo, as invulgares qualidades de inteligência e sólida cultura de Medeiros Ferreira.
Entretanto o tempo foi passando e infelizmente a Vida não me propiciou voltar a ter com ele novas “lutas”, tendo-me limitado desde aí - tão só, embora sempre com prazer - a ouvir as suas intervenções na TV e a lê-lo nos jornais… e, algumas vezes, a opor-lhe (mentalmente) os meus argumentos quando as nossas posições não coincidem - o que por vezes acontece.

Nunca fui aos Açores apesar dos sucessivos projectos de ir à Terceira ver o Hélio Flores Brasil, colega de República em Coimbra e um dos meus melhores amigos .
Também não vou agora com o Ivan ao Encontro de bloguistas em São Miguel porque a idade já não dá… São quase 84 anos, enfermiços, muito embora – maldade do meu neto – eu também tenha um mini blog: chama-se BUBA - é famoso… ao fim de quase três anos de vida tem uns dez ou doze visitantes por dia...
Como bloguista e pessoalmente deixo a todos o desejo de que tudo corra pelo melhor e, para o Dr. Medeiros Ferreira, um grande abraço. Salvador Prata

Junto dois textos que escrevi sobre a CIMEIRA DOS AÇORES e que enviei por email ao Ivan em Março e Abril de 2.003.

A ideia é de que - se para tanto houver coragem - talvez possam ser utilizados como material de debate e reflexão dos bloguistas que vão participar em S. Miguel na CIMEIRA BLOGUISTA DOS AÇORES, na eventual tentativa de dar resposta às seguintes questões:

1ª: POR QUE RAZÃO é que os militares de Abril “deram” a “independência” a todas as Colónias… com excepção das duas únicas que tinham condições, de sobra, para ser independentes: os AÇORES e a MADEIRA?

2ª: POR QUE RAZÃO é que os AÇORES continuam ocupados sem justificação desde o fim da II grande guerra mundial, em 1945 – há 60 anos - pelas forças militares dos EUA?

porquê?


Mais duas questões:

1ª: Deve ou não o GOVERNO REGIONAL (à semelhança do que fizeram os Movimentos de Libertação das ex-colónias portuguesas) libertar-se da tutela partidária e pedir a SUA SANTIDADE O PAPA que abençoe e patrocine o direito à INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES e pressione PORTUGAL para que – em obediência à VONTADE DO POVO PORTUGUÊS - liberte os açorianos da capitis diminutio a que ainda se encontram sujeitos e possam finalmente, e não obstante a sua COR DA PELE, beneficiar de DIREITOS IGUAIS aos que foram reconhecidos aos povos irmãos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

2ª: Devem, ou não, o GOVERNO REGIONAL em representação dos AÇORES E O DR MÁRIO SOARES (O MAIS LÍDIMO REPRESENTANTE PORTUGUÊS DA LIBERDADE E QUE TEM NO PROCESSO DE DESCOLONIZAÇÃO ESPECIAIS RESPONSABILIDADES), e precedendo consultas aos Chefes de Estado dos PALOPS e ao Governo Regional da Madeira, pedir, através do seu SECRETÁRIO GERAL, a intervenção da ONU no sentido de pressionar Portugal a dar a independência aos Açores.

Por que não?

E finalmente:
PROPONHO: Que seja criada A FRENTE BLOGUISTA INSULAR PARA A INDEPENDÊNCIA DOS POVOS DE LÍNGUA PORTUGUESA DOS AÇORES E DA MADEIRA (FBIPIPLOPAM).


Nota Final: Para o PROBLEMA DAS LAJES, proponho que (em ordem à legalização e justificação da situação de facto) Portugal proponha aos Estados Unidos da América – à semelhança do que foi feito com a China, em 1887 - a abertura de negociações com vista ao arrendamento das Lages por 500 anos para efeitos de utilização na defesa militar da liberdade e dos valores da civilização ocidental.

Ao contrário de Antero - que desceu, triste, desencantado, a escada estreita do palácio da ilusão, preferimos voar, subir, ainda que só nas asas da imaginação, ao espaço largo da Esperança e da Fé na Humanidade na qual, e só aí, finalmente, encontraremos, penso eu, a verdadeira liberdade.

Seguem-se os textos dos emails:

A CIMEIRA DOS AÇORES (PARTE I)
Domingo, 16 de Março de 2003
Quer sejam Assembleias, Acordos, Pactos ou Convenções internacionais, seja qual for a forma e o nome que se lhes dê (Tratado de Versailles, Sociedade das Nações, Pacto Germano-Russo, ONU...), mostram-no os factos que, mais tarde ou mais cedo, sempre acabam por ser desrespeitadas, violadas ou mesmo ignoradas, sem denúncia, nem aviso prévio, quer se trate de deliberações de Assembleias -ainda que tomadas de acordo com as regras anteriormente acordadas - quer as obrigações se consignem em contratos antes livremente celebrados .
As razões de tal facto, - também o comprova a experiência - não decorrem normalmente por motivo de má fé ou reserva mental pré-negocial . Ao contrário terão sido, na essência e na grande maioria dos casos decorrentes das alterações que, entretanto, mesmo quando não deliberadamente queridas ou sequer desejadas, o mero decurso do tempo só por si propiciam.
E isto porque é a própria dinâmica da evolução e das alterações -que ao sabor da própria vida , conjuntural, imprevisível e aleatoriamente se vão verificando - que proporciona o fluir e refluir incontrolável dos fluxos de riqueza, materializando o fazer e desfazer dos centros de poder económico. Em consonância com a sua, em regra, inerente e paralela vertente de poder militar.
E também é de todos sabido que, quando a curva ascendente do andamento da(s) vertente(s) económica(s) não é “mitigada” por crises “moderadoras” intercalares, o seu crescimento torna-se compulsivo, como necessidade incontornável e patológica da sua própria sobrevivência, criando, também ela própria, anticorpos contra a estabilização ou a regressão do crescimento económico.
Tais anticorpos, antagonistas da estabilização das crises económicas, constituem -se em metástases malignas traduzidas em acréscimos, por vezes, monstruosos de poder militar.
E, quando tal estádio é atingido, os Tratados e Compromissos assumidos deixam de ser compatíveis com os interesses do Estado cujo poder, entretanto, se foi acrescendo. Sendo certo que, quanto maior for o crescimento mais premente a necessidade de continuar a crescer incompatível com o cumprimento de obrigações que limitem ou condicionem um processo inelutável que requer, para se realizar adequadamente, de inteira liberdade de acção. Muito embora, e quase sempre, em direcção a um boom final, tal como um balão quando as suas paredes atingem o limite da resistência à pressão que o processo, em si, comporta.
Na situação actual, torna-se evidente que em tal resistência sobressaem duas linhas de força: por um lado, a Opinião Pública e por outro, o espectro do eventual agrupamento de forças militares em Pactos ou Blocos antagónicos .
Substancialmente a situação não se distingue de situações idênticas anteriores Há no entanto uma diferença significativa: a que concerne à opinião pública internacional. E isso a Administração Bush não o percebeu a tempo. E não percebeu, porque lhe faltou discernimento para entender que foi esse elemento novo - (do despertar da consciência e de tomada de posição por parte dos povos dos Estados Federados da América do Norte amplificado pela banda sonora da opinião pública internacional) - que forçou Washington a pôr um ponto final na matança do Vietname. Como não percebeu, em tempo útil, que tal pressão da opinião pública, até antes nunca expressa com tal força e intensidade, se deveu a que, entretanto, tinha começado por mérito exclusivo do progresso técnico a Era da informação instantânea. Pela Imagem; ao Vivo. Promovendo e potenciando a globalização auto formatada da opinião pública mundial. Só isso.

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A leitura da situação actual, a culminar com uma Cimeira nas Lajes só por si patética, com laivos teatrais de Ópera bufa, indicia uma penosa e pungente tentativa (precipitada e “maladroite”) de dramatização, manifestamente fora de tempo.
De facto, a lentidão de reflexos da administração Bush comprometeu, sem apelo, o êxito da “Operação” que vai desencadear, porquanto: por um lado, deu tempo suficiente a que a opinião pública mundial se mobilizasse na denuncia da natureza genocida do AFFAIR IRAQUE, e permitiu, por outro, o embora lento posicionamento face ao problema dum numeroso grupo de países, entre os quais a maioria das restantes mais poderosas nações do mundo – com a excepção (insólita ou clarividente?) da Grã-Bretanha - a ensaiarem já uma preliminar contagem de espingardas.
E desde logo, entre elas, a China a ensaiar as primeira provocações protagonizadas pela Coreia do Norte...talvez a prenunciar a sua participação nos “festejos” que os augures adivinham e os deuses já não podem evitar.
... Em 1945, o Chefe politico da Potencia mais forte – o famigerado Harry Truman - arrumou rapidamente a questão, lançando duas bombas atómicas sobre duas cidades indefesas, chacinando dezenas de milhares de pessoas. De seguida, os cinco mais fortes julgam em Nuremberga os criminosos vencidos, do mesmo passo que ocultam ou condecoram os seus próprios criminosos.
Entretanto, ajustam entre si um novo Tratado de Tordesilhas promovendo a partilha e sujeição de diversas partes do mundo. De par, criam a ONU superintendida pelo grupo dos mais fortes, compondo o bouquet com mais umas dezenas de “figurantes”, grande parte deles sem perfil adequado e, por vezes, sem qualquer capacidade de intervenção ao nível de Estado em Relações Internacionais.
A Plateia está constituída... com uns quantos lugares marcados na 1ª fila. A grande maioria acotovela-se na “geral”.
O Big Show americano vai começar... Já se ouviram, não as três pancadas clássicas de Molière, mas as duas detonações monstruosas de Hiroxima e Nagasaki a prenunciar a Nova Ordem do futuro.
E quando tudo acabar, os “índios” (todos os índios americanos de todas as cores) irão todos dançar em redor da fogueira, finalmente guardados os machados de guerra.
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A iniciativa obviamente desinteressante – (astonishing, ou mesmo shocking, conforme o ângulo) - do encontro nos Açores entre o representante de uma Confederação de Estados - ainda formalmente Unidos e em processo de fermentação civilizacional e simultaneamente de independência - com os supostos ”representantes” (de duvidosa legitimidade) de dois Povos de Culturas pluricontinentais, caldeadas por séculos de Civilização, deixou o mundo perplexo. Pormenor, pelo menos hilariante - talvez para aligeirar o dramatismo da situação - foi a presença patética, constrangida e confrangedora do representante de Portugal .
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A interrogação vai resistir ao tempo: Sem reposta: porquê os Açores? Porquê uma ilha? espectro de Santa Helena? Ou mero simbolismo ? - Quais “cavaleiros do apocalipse” trazendo à arreata , qual sendeiro, um ”impedido” aparvalhado, isolados já do resto do mundo? SÓS. Encurralados já em si próprios?
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Numa guerra em que milhares de inocentes vão morrer, o Encontro dos Açores ficará como o tiro de pólvora seca que - qual trombeta a anunciar às suas vítimas o inicio do massacre, espatifou a ONU e a UE. Que a Nato já tinha começado a desconjuntar-se ao aproximar da borrasca.


A Cimeira dos Açores II
20 de Março de 2003

Finalmente consumou-se a agressão ao Iraque. As multidões de vidas humanas que de uma maneira ou de outra se vão perder são as cruzes de guerra dos seus vencedores.

Em termos de futuro, nada é previsível. Hoje. Como sempre...
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Julgamos porém – pressente-se - que algo de novo e de diferente está já a acontecer: tal como os ruídos surdos ao aproximar de um terramoto ou as rajadas fortes do vento ao aproximar de um tornado , começa a ouvir-se já - misturado com os ruídos cavos ou fragorosos das explosões das bombas e do crepitar das armas - o ruído de fundo da opinião pública; consequência directa do metralhar das imagens contundentes e revoltantes (das crianças, mulheres e idosos, mortos e feridos) transmitidas em directo pela comunicação social.
É o despertar da consciência colectiva, à escala mundial em gritos de protesto, revolta e fraternidade, a soltar-se de manifestações das massas, em processo de globalização. Em luta pela Liberdade.

Escrevemos no dia 16 que os dois únicos “factos força” dos quais vai depender a solução da chamada guerra do Iraque são: por um lado, a opinião pública, mediatizada à escala global; e por outro as reacções que (já esboçadas por alguns) inevitavelmente vai provocar, com os consequentes alinhamentos de forças e de interesses que daí, necessariamente hão-de resultar.
E julgamos mais:
Julgamos que - para além dos ingentes problemas que vão fatalmente suscitar-se como resultado da confrontação com outras potencias para decidir da ocupação efectiva dos poços do petróleo e das posições estratégicas no Iraque - com vista ao prosseguimento da cruzada de libertação dos povos do jugo de alguns ditadores ainda a designar, -os Estados Unidos terão um problema ainda mais grave : o despertar da consciência das populações nos diversos Estados americanos. É que, Julgamos ser aceitável esperar que também lá - não obstante as esperáveis medidas (usuais na América quando os interesses das classes dominantes o aconselham) - os efeitos colaterais das imagens da TV mesmo em diferido - acabarão por provocar na opinião publica efeitos semelhantes aos das bombas fracturantes lançadas pelos “heróicos” soldados americanos sobre os bairros residenciais de Bagdade.

Desencadeada a agressão e a enormidade que representa, é também previsível que os Estados Unidos tenham que vir a confrontar-se com uma hostilidade endémica em todas as partes do mundo onde estão militarmente instalados, como efeito das reacções em cadeia da opinião pública repercutida em directo pelos meios do áudio visual da comunicação social, e em especial, pela televisão.
E é também esperável que a opinião pública nos Estados americanos, venha a reagir embora lentamente na fase inicial da ”guerra”, enquanto não começarem a consciencializar a enormidade do crime que os seus dirigentes políticos vão a praticar e os jovens americanos –sobretudo as dezenas de milhares deles arrancados à sua vida, metidos em uniformes e mandados avançar para a fogueira não começarem a regressar à América em sacos de plástico.

É possível que esta guerra desencadeada pela plêiade de criminosos que, neste momento, dirige os destinos da América, seja o princípio da independência dos povos dos Estados americanos e da vitória definitiva do espírito dos emigrantes, de todos os emigrantes, -sem descriminação de títulos, de família, da posse de dinheiro e da cor da pele, - e em que os ideais dos primórdios da independência, liberdade e igualdade, de pessoas e de oportunidades, possam vir a ser novamente uma realidade, .
No caso Vietname, como no caso Luther King, os media americanos actuaram ainda de maneira primária, e ainda também sem a verdadeira consciência do seu poder, como das suas novas responsabilidades e obrigações. Diríamos que num como noutro caso se comportou ainda tal como uma criança: correu ao ouvir foguetes e ajudou à festa.
Actualmente, julgamos que as reportagens e as transmissões em directo poderão produzir efeitos semelhantes a explosões de mini bombas atómicas multiplicadores e dinamizadores de opinião pública formando correntes e sorvedouros que poderão ser a causa ocasional de que falava Malebranche que pode acabar por fazer submergir o poder político-militar dos Estados Unidos.
Que este Poder pressente o perigo, exemplifica-o o facto de hoje, logo pela manhã, ter ouvido que um dos primeiros alvos do ataque a Bagdad teria sido uma estação emissora iraquiana.
O que revela que o poder político na América ainda não percebeu que está a viver num mundo que já não existe. pois continua convicto de que vão bastar-lhe ,na senda do seu caminho de Polícia, Tribunal e Carcereiro do mundo, a Censura e os mísseis inteligentes. Privilegiando a inteligência das bombas e desprezando a vida e os sentimentos das pessoas, crê ainda que pode submeter a consciência da humanidade, destruindo-lhe os princípios a tiros de canhão.

Durante a 2ª Grande Guerra e sobretudo depois de Pearl Harbour a grande maioria dos jovens da minha geração tinha pela América, uma enorme admiração. A crueldade e selvajaria dos Nazis e dos japoneses considerávamo-las como uma maldição que as Democracias tinham de eliminar. Depois de Hiroxima percebemos que os políticos americanos não eram melhores que os nazis e que os japes.
E percebemos também que os poderes politico - económicos dos países mais fortes, são sempre potencialmente perigosos . Sem excepção. E sempre que - e também sem excepção - accionam a sua manus militari as principais vitimas são sempre as populações civis dos países mais fracos :quer pagando em dinheiro os custos dos danos materiais , quer pagando com a vida os custos dos danos colaterais.

Depois da cobarde agressão ordenada pela clique do Bush ao Iraque “sentimos“ que pode vir aí não o desaparecimento da “velha“ Europa mas sim por obra e graça do poder (revolucionário) dos media a “renaissance” da velha América ,que, liberta por fim do jugo federal possa conduzir ao milagre da multiplicação do que foi a terra de promissão e farol de liberdade dos marginalizados de todo o mundo. 
13 março 2006
  Ao fim da tarde

Era o fim da tarde em princípio de noite a descer depressa e a fazer-se escura em farrapos de sombras.
Em corridas curtas o cão parecia nervoso talvez com receio sabe-se lá de quê como se quisesse enrolar-se nas pernas do dono e travar-lhe a passada firme determinada.
Os olhos do homem duros absortos não olharam o cão nem uma só vez.
O caminho ia-se estreitando em piso de pedras soltas a gemer calcadas pelas botas do homem. Até que findou.
A noite entretanto também se fechara por dentro na mata cerrada e o cão e o homem tensos irmanados agora em receios vagos a fazer-se medo e as sombras dos dois a esfumar-se nas sombras da mata.
Da escuridão da noite despegou-se um rugido de garras e dentes prontos a matar «Salta Fiel!» açulou o homem mas o cão não saltou.
A espingarda interpôs-se entre a fera e o homem e cuspiu em resposta o rugido de morte da fera bravia… tirando o chapéu o homem deixou que a chuva miúda lhe lavasse da cara o suor do medo.
De uns metros atrás veio logo a seguir um restolhar de mato da passagem do cão no regresso da fuga. A espingarda voltou a espirrar e trouxe de volta um grito de morte no ganido do cão. “Cabrão” disse o homem e começou a andar.
De repente parou e num acesso de fúria agarrou na arma e bateu forte com ela no chão a arma espirrou e o homem caiu “Cabrão!...” murmurou ainda.
…o cão: - arrastou-se (até junto do homem caído no chão) a ganir em surdina como se gemesse a pedir-lhe perdão.


Quando o tempo acabou

Quando o tempo acabou
E não houve mais palavras
De todas quantas se disseram
As melhores de todas elas
As que mais alto gritaram
Embargando-nos a voz
Foram as que não se disseram
Ficaram dentro de nós
Palavras mudas sem voz
Partidas em mil pedaços
Pedaços da nossa alma
Guardados dentro de nós. 
09 março 2006
                 A burra da Carolina
                            e
        Os Ti Jaquins deste mundo


Em alguns anos, já lá vão muitos, as minhas férias eram passadas por vezes numa aldeia, próxima das Caldas da Rainha: - 3 quilómetros – Que eram feitos a pé. E logo a seguir, à beira do caminho, salpicado por pinheiros, era o “casal” – um casebre de família amiga – gente pobre – com telhado e paredes pardacentas de lousa, lascas de pedra nua, com lagartixas e osgas que o tempo quente trazia. Vindas sabe-se lá donde…Era ali.
Dentro da casa, o chão – do lado em que se “vivia” – era de terra batida; e como mobiliário tinha – encostadas à parede, três camas de ferro com colchões de palha, cobertas com colchas branco–sujo, de linho grosseiro, bordadas à mão.
…Ao centro – do “open-space” havia ainda uma mesa, tosca, de madeira… que era onde depois da ceia eu lia o jornal que o carteiro todos os dias trazia...
Quando chegava, próximo do “casal”, tocava a corneta…é que, naquele tempo, os carteiros rurais, quando chegavam ao “povo,” nas aldeias e nos lugares por onde iam passando, sopravam num instrumento de metal, um aviso sonoro e as pessoas “acudiam” a ver se tinham “correio”. Ir ao chamamento da corneta do carteiro era quase uma festa; que a outra, maior ainda, era “acudir” à igreja sempre que o badalo do sino chamava ao redil o seu rebanho.
Já no Casal, as coisas não eram bem assim… lá, do que as pessoas gostavam, a sua hora de festa – eu diria mesmo, de recolhimento – não era a da chegada do carteiro nem o do badalar do sino… – o bom momento, o momento feliz a que, intimamente “acudiam”, quase a roçar a devoção, era à noite, depois da ceia, quando todos ainda à volta da mesa, depois da leitura dos crimes, eu começava a ler o “folhetim”: - confabulações que metiam quase sempre amores contrariados de raparigas, filhas de família – em regra da nobreza – que tinham sucumbido à força da paixão, e que – em nome da moral e em defesa da honra (manchada) do nome da família – eram “degradadas” – como freiras – para lugares distantes; e as criancinhas, frutos de amores ardentes que tinham vindo à luz do dia, eram “expostas”, pela calada da noite nas “rodas” dos conventos… as quais tempos depois, já adolescentes – o tempo – fazia vir a luz outra vez – famintas, andrajosas, – integradas em circos ambulantes de ciganos, a exibir-se nas feiras… Vindo mais tarde a descobrir-se que todas tinham sempre um sinal num sítio escondido do corpo, prova irrefutável de que eram descendentes de senhoras nobres, às vezes princesas, mais ou menos infelizes, filhas de pais austeros e brutos como casas.
Depois vinha finalmente a reconciliação, as lágrimas, de felicidade, os beijinhos, em suma vinha Deus (pessoalmente) concertar com a sua bênção divina o mal que os homens maus tinham feito.

…Na descrição das tragédias e sobretudo das cenas de reconciliação a prosa do folhetim, era por vezes de partir o coração e tudo chorava minha gente; e as situações, eram por vezes, de tal modo dramáticas e comoventes que até o Ti Zé da Carolina limpava o olho ao barrete.
Depois íamos todos para a cama que a “alvorada” era logo a seguir, quando mesmo antes do nascer do sol a luz começava a filtrar-se pelas frinchas dos portais de madeira das janelas.
Adentro do contexto eu era uma espécie de pastorinho (ou de irmão Lúcio) que lhes tinha revelado os segredos do folhetim do jornal que o carteiro todos os dias deixava no casal. E até aí tudo bem.

O reverso do segredo era eu não entender nada dos enredos que lia no folhetim: - na Quinta, onde eu sempre tinha vivido, - as raparigas, em regra começavam a ter filhos por volta dos 15 anos. Pariam (a Ti Miquelina aparava e pronto, tudo bem)… os pais das raparigas não ligavam nenhuma…aliás ninguém ligava…
Por outro lado eu nunca tinha visto as crianças que nasciam serem “expostos” em “roda” nenhuma…mesmo que os pais não se casassem …e era a maioria…E não casavam, diga-se de passagem - porque - dizia a malta da Quinta - os padres também não casavam e tinham filhos: - faziam-nos nas mulheres dos outros. Ora não!… E pronto: - assunto arrumado…
Aliás as mulheres casadas que iam emprenhar à sacristia também não eram despachadas para freiras. E alguns maridos – cornudos – até se sentiam honrados por ser o Senhor Prior a promove-los a bois… E bem vistas as coisas, no fundo, era uma distinção da igreja: uma espécie de “indulgencia” do Pastor concedida à ovelha… em que a devota pouco dava em troca da “graça” recebida. E aqui também toda a gente aceitava sem reparo de maior. Portanto, Ponto final.

As camas onde dormíamos eram resguardadas por cortinas, presas em cordas por pregadores de roupa como se estivessem ao sol a secar… ouvia-se tudo… e às vezes, meio em surdina nas outras camas era uma “restolhada” algo excessiva… eu não ligava – já tinha “tarimba” – mas o pior era a Carolina: - estava sempre a tossir, –, e o marido, o Ti Zé, a ressonar e a sonhar alto era também muito chato… Juntava-se aos diversos sons, com causa nos que dormiam, o horror das aranhas negras, medonhas, a sair lentamente dos buracos das paredes escuras e rugosas, do meu “quarto”...
Eu tinha medo. Não conseguia dormir.

Como se fossem da família, cá fora “viviam” também dois porcos. Encurralados nas pocilgas. Grunhiam. De quando em vez -, a espaços de duração imprevisível -. Noite e dia: - a patinhar na merda… a chafurdar nas artêsas… Era um cheiro pestilento… Nem na Fossa onde eu vivia… Na Fossa também havia porcos mas ia tudo para o caneiro onde escorria a céu aberto. Mesmo assim, era muito mais higiénico. Eu achava…

Para além da parte em que estavam os currais e o “quarto independente “ onde dormia o Ti Jaquim, o “casal” tinha em toda a volta um espaço grande e em frente, sobranceiro, começavam os bordos do pinhal onde eu e minha mãe por vezes, esperávamos que chegasse a Carolina.
Junto de nós e como era habitual o Ti Jaquim esperava também. Naquele dia, porém mostrava-se, mais impaciente que de costume e logo desde ainda muito cedo, começou a resmungar: - “Foi levar o jantar a Óbidos.”…

A Carolina – como acontecia muitas vezes – nesse dia, meia manhã passada, arrancara em cima da burra para ir levar o “jantar “ ao marido… Que o Ti Zé era “cavador de enxada”, ”ia fora” ”à jorna” – de sol a sol – cavar nas terras dos outros, por vezes longe do Casal… Que, nos dias em que não ia, trabalhava na leira de terra que era deles e se estendia do casal até lá abaixo, onde ficava o poço. Era daí que lhes vinham: - as batatas, as couves, os feijões, as uvas de boa casta com que enchiam o barrilito de 100… – em suma, tudo o que era necessário ao “arranjo da casa”.


A beira dos 90 anos, muito curvado – o nariz já pouco acima do nível da cintura – o barrete preto (“saco do café”) enfiado na cabeça, a borla descaída o Ti Jaquim… naquela manhã estava mesmo quezilento: e volta e meia resmungava: “Filha da puta! “Rais” a ’partisse! Nem para fazer estrume serve!”. Referia-se com certeza à burra que por ser já velha andava muito devagar e seria a causa da demora…
…E logo a seguir repetia Um rais a partisse!… e comentava como se estivesse a falar consigo mesmo: - “Foi levar o jantar a Óbidos.”. Referia-se agora à Carolina que, enfraquecida pela tuberculosa em estado adiantado, mal arranjava forças para se mexer; e normalmente não andava: - arrastava-se…

Intrigado primeiro, conclui depois que o Ti Jaquim o que tinha era fome sendo certo que só depois de chegar a nora é que ele comia alguma coisa: - e em regra pouca coisa, que o mais das vezes era só o que ficara do “jantar” do filho: - duas ou três batatas cosidas porque do pedaço de carne e da chouriça, quase sempre nem raça… E era assim, porque, quem tinha que puxar pela enxada a cavar terra – ou pelo machado, quando ia de madeireiro para os pinhais – era o filho, o Ti Zé. E o Ti Jaquim já não fazia nada: - era velho… Só dava despesa e chatices… era o que eu ouvia dizer…
E a verdade é que naquela manhã o velho estava mesmo quezilento. E embora já se movesse com grande dificuldade, não parava quieto. A certa altura comecei a ficar irritado e desabafei mentalmente: Filho da puta!…
…Finalmente, lá longe, ao fundo, onde principiava o caminho, começou a tomar forma a silhueta curvada da Carolina montada, de lado, na burra. Vinham muito devagar à “torreira” do sol, pelo carreiro, aberto entre o vinhedo que se estendia campos fora desde as franjas do pinhal: - a imagem das duas lá ao fundo, fazia-me me lembrar duas figuras do presépio: a burra e Nossa Senhora…
“…Aquilo é que é uma omage…” dizia escarninho o Ti Jaquim.

Quando chegaram, finalmente, levantou-se a custo e agarrado ao varapau, aproximou-se das duas …E logo que a Carolina se apeou (se deixou escorregar) da burra, o Ti Jaquim, largou o varapau e com as duas mãos agarrou – se à albarda da burra… E a seguir, com um esforço tremendo (eu bem via …) tentou levantar a perna para lhe dar um pontapé na barriga. E de cada vez que tentava, soltava um urro. Exausta, indiferente, a burra nem se mexia.
…Ainda hoje revejo com nitidez essa cena, que a memória me guardou… e sobretudo a expressão de cada um dos dois olhares que para sempre ficaram gravados em mim: o ódio, a malvadez, o prazer de fazer mal que eu vi nos olhos do velho e a expressão dos olhos parados da burra: -um olhar, dorido, o olhar de quem sabe que não pode fazer nada, que tem que sujeitar-se, como se fosse um olhar de mulher em quem o marido bate, sem razão, sem motivo, sabendo que pode bater à vontade… Por pura malvadez…

“Ti Jaquim, não bata na burra.”. “Ela não lhe fez mal nenhum…”. Julgo, que o Ti Jaquim nem me ouvia… mesmo quando comecei a berrar: Cabrão! Filho duma puta!
A burra olhava para mim. Os olhos serenos, tranquilos, olhavam -me com ternura. Como se me agradecesse… como se eu fosse seu filho ou ela fosse minha mãe…

Irmos os dois ao poço: - era o nosso vício – o meu e da burra – Não íamos matar a sede. Não: - que ela aliás nunca tinha sede. Do que ela gostava – eu via – era de ir comigo. Só ir ter a minha companhia… como qualquer ser humano quando vai ao bar com um amigo só para descontrair, mesmo que não lhe apeteça falar nem lhe apeteça beber nada…
Corria o ano de 31…
Prendia-lhe a corda do balde ao cabeção atirava o balde para dentro do poço e ela puxava… Era um ritual: - parecia que gostava que eu fosse ao pé dela e lhe prendesse a corda ao pescoço e ficasse depois a olhá-la, a vê-la ir andando, devagar, cuidadosa, para que o balde enquanto subia se não entornasse…

Já velha, esgotada de forças que a idade, a porrada e a fome lhe tinham tirado, já era a custo que a burra da Carolina puxava a corda do balde de onde eu bebia com prazer,… quando chegava cá acima, a água sempre muito fria… Depois era a vez da burra Mal molhava a boca Sem sede, eu via que bebia ou fingia beber só por delicadeza só para me fazer companhia… Depois ficava a olhar-me…


Costumava encontrar-me com ela logo de manhã mal começavam no pinhal a ouvir-se os sons cavos dos troncos dos pinheiros a cair em pedaços cortados pelas serras e pelos gumes acerados dos machados.
…Naquela manhã ela não estava à minha espera como de costume à porta do curral; descobri-a já lá em baixo, junto ao poço deitada no chão, de lado, a terra batida a servir-lhe de cama… Senti o coração a bater mais forte e aflito, comecei a corre lá para baixo… para lhe acudir, fazer alguma coisa…

Os olhos fechados, parecia morta. Ajoelhei junto dela...
Sem saber que fazer fui buscar a corda do balde e prendi-lha ao pescoço… pensei – penso eu agora – que prendendo-lhe a corda, ela me ia sentir, ia levantar-se e começar a andar. Mas não: -esgotada já não foi capaz mas eu pude ainda ver-lhe nos olhos já turvos, vidrados, pela névoa da morte, a luz suave, feita de ternura que eu tão bem conhecia…
E quando voltou a fechar os olhos comecei a chama-la e em desespero agarrei outra vez a corda e puxei repetidamente tentando acordá-la. Não acordou mais; rompi em soluços e agarrei-me a ela… Senti-me só.

Voltei ao “casal” mais tarde:
- Corria o ano de 02.
Voltei a ver o poço e voltei a vê-la: - …continuava deitada, de lado, na terra batida a servir-lhe de cama, onde a tinha deixado da última vez Ajoelhei-me ao pé dela a tentar abraçá-la. E mais uma vez voltei a sentir, vinda dos olhos dela, eu diria da alma, a luz de ternura que eu tão bem conhecia… A deixar-me de vez… Só... Velho… Sem ter mais ninguém… Senti-me sozinho… Agarrei-me a ela e rompi em soluços… 
salvadorprata@netcabo.pt

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