Buba
30 maio 2006
  Aos meus amigos Lino, Fátima, Marta, Maria André, Nuno, Pedro, Rui, Tânia, Margarida e Roberto do 4.º ano da Escola E.B. 1 da Junqueira, Vila do Conde.

Peço-lhes desculpa pelo enorme atraso com que venho agradecer-lhes as palavras amigas que me dirigiram no passado mês de Janeiro do ano corrente de 2006. O atraso deve-se sobretudo a não saber como agradecer-lhes. Pensei, pensei e vejam o que saiu: asneira; de certeza que se vão rir: lembrei-me de vos contar uma história que a minha mãe me contava quando era ainda muito miúdo: – tinha talvez os meus 5 ou 6 anos – e gostava muito que a minha mãe me contasse a história. Ah Sim!... ainda não vos disse um pormenor: é que a história que a minha mãe me contava era sempre a mesma… Não sei porquê: não sei se era porque a minha mãe não sabia outra, ou porque era sempre aquela que eu lhe pedia para me contar…
… E agora, como forma de agradecer as vossas palavras amigas, resolvi contar-vos a história que a minha mãe me contava quando eu era ainda muito pequeno. Eu sei que vocês já não são criancinhas a quem se contem historias... Mas, “prontos”: estas recordações de infância são o que de melhor eu guardo dentro de mim … e, por isso mesmo, as quis repartir com vocês… E, quem sabe se a Tânia, o Lino, o Roberto – ou algum dos outros meus amigos do 4º ano da Escola EB da junqueira – não terão também, para contar, histórias que as mães deles lhes tenham contado, à noite, antes de adormecerem, quando tinham 5 ou 6 anos… Quem sabe?

Um beijinho a todos do avô Salvador.

E agora aí vai a história:

O Carvoeirito
Aconchegado, mordendo numa ponta do lençol, ouvia…
Sentada num banco baixo, a malha nas mãos, minha mãe contava: “…depois, o Carvoeirito…”.
Era sempre a mesma história que minha mãe me contava depois da luta introdutória: “Vai para a cama. Sabes que horas são?”. Não sabia. Nem queria saber…
“Só se a mãe me vier contar a história do Carvoeirito… e no final, lá vinha o banco e a malha.
“Onde é que eu ia ontem?” “Não interessa, conte do princípio…”
E ela contava: como a seguir eu vou também contar: “Filho de rei por nascimento, sem o saber, ambições e maldades dos homens fizeram dele almocreve. A correr o mundo…
Até que um dia chegou a uma cidade onde havia um grande palácio, muito bonito. A ele foi o almocreve a oferecer carvão; e em troca dele, uma malga de caldo; e p’rá noite uma cama, numas palhas em sítio onde ele e o burro, pudessem ficar.
Ao vê-lo o rei que ia a passar, teve um pressentimento: ele, rei, que há largos anos vivia fechado em sua dor, pelo desaparecimento de seu único filho. E logo ali lhe mandou dar farta refeição e um bom aposento. E à noite, ordenou, que viessem para serão, os fidalgos da corte; e mandou ainda, que a ele viesse, também, o Carvoeirito.
E assim, cumprindo a ordem do rei, entre expectantes e surpresos, se foram os fidalgos assentando à volta da lareira. E assim acomodados, se mantiveram todos, ouvindo lá fora o inverno da noite, enquanto o rei não chegava.
Tímido e receoso, a um canto, encolhido, se postara o pequeno almocreve: excogitando os porquês da real vontade e – habituado que estava aos pontapés dos homens e ao ladrar dos cães – de qual o “crime” que, sem querer, decerto praticara e pelo qual, decerto também, ia ser castigado.
E eis que chega, o rei; E logo, todos ao vê-lo, se atiraram de joelhos ao chão: que era esse o costume do reino.
O rei trazia na cabeça uma coroa de rubis e brilhantes, capa de arminho aos ombros e o ceptro na mão. E com ele também, forte escolta de tropas; fortemente armadas. O que tudo deixou – aos fidalgos – a uns embasbacados e a outros vagamente receosos.
E logo ali ordenou o rei ao Carvoeirito que a todos contasse, porque ele rei a queria ouvir, a história da sua vida. E assim se fez: e o Carvoeirito cumprindo a ordem recebida do rei, começou assim: “Era uma vez um menino…”. “E depois…, prosseguiu: quando era muito pequenino, o menino foi levado por uns homens muito maus que o abandonaram lá na serra, noite escura, cheia de lobos muitos maus e só embrulhado numa mantinha. E nem lhe deixaram comer nem nada que era para ele morrer de fome”.
Pungente era a história – a que todos ouviram: a história da sua vida, à ordem do rei contada.
E que o contador de tal conto – todos adivinharam – só podia ser o filho que, “perdido” pelo rei, nunca mais fora encontrado: - o filho desaparecido, por ambição e maldade de não se sabia quem. E daí que, enquanto já exultavam alguns, outros inquietos já tremiam pelo medo que lhes causava tal conto que o receoso contador continuava a contar.
“E depois… apareceram uns pobrezinhos, que andavam por ali, e que recolheram o menino porque tiveram muita pena dele. E quando chegaram a casa, deram-lhe leite duma cabrinha que eles tinham e fizeram-lhe muitas festas e o menino ficou muito contente. E então viram que o menino tinha um sinal num bracinho e ao lavar o menino viram que o sinal era de nascença e não saía e quando viram melhor, viram que era uma marca muito linda, com uma coroa e muitas espadas à volta.”
Ia assim o contador contando o conto quando alguns fidalgos já muito nervosos pediram licença ao rei para se irem deitar dizendo que se estava a fazer muito tarde e estavam a ficar com frio… Mas o rei que estava cada vez mais nervoso ao ouvir a tão pungente odisseia do menino, “alevantou-se” furioso, lá donde estava sentado e desembainhando a espada, comandou: “Conta, conta, Carvoeirito, que daqui ninguém se levanta.”.
…Depois voltou a sentar-se soltando fortes gemidos de cortar o coração. Entretanto, o comandante das tropas, vendo que alguns fidalgos se estavam a preparar para fugir, logo deu ordem às tropas para avançarem um passo, para lhes apertar o cerco. E vendo o rei por seu lado, que o Carvoeirito também estava a ficar amedrontado logo lhe disse: “Não tenhas medo. Conta! conta!...”
E assim, o contador continuou a contar: “E depois…”.
Eu – entretanto e enquanto ia ouvindo a minha mãe contar (…o sono a esborratar-me já o entendimento), ia fechando os olhos. Era a altura em que a minha mãe dizia: “agora espera aí um bocadinho, que eu já venho.”.
Sobressaltava-me sempre: “Onde é que vai?”… Verdade que não podia ir longe: a casa era pequena e para ir à rua, não era propicia a hora. “Vou ali fazer uma coisa e já venho.”. E lá ia…. E lá ficava eu, até que daí a pouco adormecia, a sonhar com os meninos marcados nos bracinhos, logo quando nasciam, com sinais que os tornavam diferentes dos outros meninos que, quando nascem, não trazem tal sinalização.
Minha mãe ia-se embora e não voltava. Por isso nunca me contou o final da história nem qual o castigo dos homens “maus” que de noite tinham levado o menino para a serra medonha.
Uma vez, na minha inocência e enquanto ouvia contar a história, perguntei: “…e o burro mãe?”. Queria eu saber se o burro do Carvoeirito também era filho do rei. Que não, disse minha mãe. Que era filho de outro burro… que os reis não tinham filhos burros. Era de lei…
…Uma noite acordei ou porque mais agitado ou mal adormecido: surpreendeu-me o silêncio e a luz que se coava da sala contígua. Tonto pelo sono, levantei-me da cama e pé ante pé, espreitei e vi minha mãe, imóvel, sossegada, a malha no regaço. Parecia adormecida. Pareceu-me que chorava… chorava talvez por me ter deixado vir ao mundo, sabendo que eu não tinha sinal.

Minha mãe nunca mais voltou à noite para me contar o fim da história, antes de eu adormecer… mas sei, tenho a certeza, que uma noite destas, minha mãe virá de novo sentar-se num banco baixo, à minha cabeceira, com a malha nas mãos e, depois de eu adormecer, irá contar-me, finalmente, o final da história que, quando eu era criança, me contava para eu adormecer. 
29 maio 2006
  1- A HONRA
Os Samurais da Fossa

A “dejua” do ”pessoal” da Quinta eram as sopas de cavalo cansado: uma malga de vinho, a ” martelo,”do carrascão da “Ti Macaca”, uma “pomada” que fazia uma espuma grossa, rosada, quando saía do pipo… (metabisulfito puro) e pão torrado, cortado aos quadradinhos, ensopados no “resmungo”. Ficavam de molho. Com muito açúcar. Toda a noite. Comia-se de manhã. Dava força…
Em alternativa e à compita era a Ti Carlota. Vinha de manhã muito cedo: - antes de ser dia – Fava-rica! gritava ela quando entrava na Azinhaga. Quase a escaldar, era o pequeno-almoço de outra parte daquela gente que saía de casa, ainda noite, antes mesmo do findar da madrugada. Para trabalhar no duro na Ribeira, na Estiva, no Arsenal da Marinha, na Parry & Son… alguns traziam marmitas para levar e comer mais tarde. E eram sobretudo os putos que deliravam com aquela espécie de sopa semelhante à lavagem que na Quinta davam aos porcos, verde escura, com bocados de favas cozidas a boiar. Cheirava bem, vinha quente e era barata.

Naquele começo de dia a Ti Carlota não veio… O “pessoal” da Azinhaga, habitué da fava-rica, bem esperou por ela, como de costume. Soube-se depois, – quando os bombeiros arrombaram a porta do “Lugar” – que a Ti Carlota se tinha enforcado, pendurada numa corda, presa num barrote do telhado.
Eu fui lá ver: - a Ti Carlota tinha a língua de fora: o sorriso transformado num esgar de sofrimento e amargura, os olhos a sair da cara.
“Foi por causa dos calotes” diziam alguns gajos que também foram lá vê-la. Vítima do pecado de ser honrada, era a justificação do acto de desespero que levou a Ti Carlota ao suicídio: Vendia fiado e muitos dos fregueses – muito pobres – não tinham podido pagar-lhe. Tinha falido… a honra diziam os gajos… mas que é isso da honra? Perguntei. Ninguém sabia… Toda a gente gritava, sobretudo o mulherio… desesperado comecei a gritar também: Ti Carlota não morra! Caralhos a fodam! Desça daí, porra! … de nada valeu a gritaria.
Dois gajos subiram para cima do balcão e cortaram a corda; mas não foram a tempo… Depois vieram outros gajos da polícia que prenderam os gajos que cortaram a corda. Não podiam… Era de lei. De Lei… Filhos duma grande puta! E a honra? Também não sabiam o que era… Cabrões!

Hara – kiri
O branco imaculado das vestes, vim a saber mais tarde, era o símbolo cromático da honra dos Samurais. Que, quando manchada, impunha que fosse lavada com sangue de acordo com a tradição: enterravam a lâmina no ventre e cortavam. De baixo para cima. Era uma agonia prolongada e dolorosa. E se a morte demorava tempo demasiado um amigo decepa-lhes a cabeça.
…Sem honra os Samurais não aceitavam continuar a viver. Os Samurais da fossa também não: Havia porém uma diferença: - é que a honra Dos Samurais da fossa nada tinha a ver com a derrota, em combate, frente ao inimigo que era, em regra, para os Samurais, a causa da desonra… Como também nada tinha a ver com o desagravo do homem que, traído pela mulher, lava a honra com sangue, a golpes de navalha. Não; a honra dos Samurais da fossa era o respeito por si mesmos, pelo seu bom nome, pela palavra dada… Subir para cima de um banco, passar uma corda à volta do pescoço, saltar no vazio e ficar depois a oscilar, lentamente, já sem vida, na ponta da corda, presa num barrote do telhado.


2- A DIGNIDADE: DO CÃO
Sete furos abaixo: Eu e o criado

Levantei-me com dificuldade. Tinha muitas dores. É da idade. Vesti o sobretudo, pus o cachecol e para me tapar as orelhas e proteger do frio pus o barrete: - um barrete igual aos que antigamente usavam os estudantes de Coimbra e usam ainda os moços de forcado.
Estava no restaurante. Vim andando e à porta, com um ar entre o divertido e o trocista, estava um criado à minha espera para o agradecimento, sabujo, do costume. Dei uns passos rápidos e pus as mãos atrás das costas empinando o peito para a frente, como se fosse um forcado e estivesse a citar um touro… O criado achou imensa graça. Eu pensei: cretino. E saí. Estava um frio lixado…
Vim para casa. Deitei-me em cima da cama, a descansar. O cão veio também e deitou a cabeça, em cima do meu peito, como de costume. E, como de costume também, comecei, distraidamente a afagar-lhe as orelhas. Depois, de maneira talvez um tanto brusca – não me sentia bem – disse: Buba! Vai–te embora! Acabou! …
O cão ergueu-se nas patas dianteiras – a surpresa espelhada na limpidez glauca dos olhos, quase cegos – olhou-me. De frente. Depois, voltou a por as patas dianteiras no chão e – sem voltar a olhar para mim – como se eu não existisse – foi-se embora.
Olhei-me nos olhos. De frente e pensei: cretino! Depois adormeci. 
12 maio 2006
  Sum, es, est Descem e sobem pelas paredes falsas do Céu e do Inferno
Soldados armados e anjos alados, heróis e palhaços, génios, e Santos…todos misturados
Legiões de vivos sedentos de morte, legiões de mortos com fome de vida,
Crianças sem cor e velhos cansados de olhos apagados,
Todos misturados, vogando sem destino pelo espaço vazio ,
Salpicado de brasas e cinzas geladas,
E o mar furioso a dar chicotadas a querer afogá-los
A dar machadadas
Nas legiões de vivos e mortos todos misturados
que se vão desfazendo
Em nuvens de fumo em sombras de nada. 
11 maio 2006
  Da última vez... Da última vez que fui à Caparica. O que me ficou: eu conto. Nos bancos de trás vinham “empilhados” talvez uns 15 adolescentes que faziam uma barulheira infernal. E a certa altura uma das raparigas levantou-se e começou a vir pelo corredor. Tinha vestidos uns calções, apertados, muito curtos e decotados até bastante abaixo da cintura a mostrar com generosidade la courbe de l’ancille… E a servidão de vistas que propiciava potenciava–lhe as graças mais do que se fosse nua.
A marcha irregular e sacudida do autocarro fê-la perder o equilíbrio: tentou ainda agarrar-se ao varão dum banco mas não o conseguiu. E, desamparada, veio cair-me em cima… Devoto, agradeci a Graça à Virgem Maria… Ela, porém, a ímpia e porventura incréua rapariga, nem sequer se apercebeu da minha devoção. Sendo que, se a Senhora não tivesse dado – e sem dúvida o fez em minha intenção - aquele ar da sua Graça, ela teria, seguramente, malhado com os costados no chão…
À gritaria que os do grupo faziam “ajuntava-se” o guinchar dos pneus e o rosnar surdo do motor - curva contra curva estrada fora - qual partitura duma criação de Wagner que tivesse enlouquecido… Lá de trás um dos amigos gritou não percebi o quê. Em resposta a rapariga, já refeita - e enquanto dava uma risada –, gritou também, à laia de despedida: “vai p’ró caralho!” Depois saiu.
Do outro lado da coxia iam mais dois do mesmo grupo: talvez mais novos, treze, catorze anos, por aí… Sentados frente a frente. Em bancos separados. A rapariga tinha estendido uma perna e, com os dedos do pé entre as coxas do rapaz, acariciava-lhe os colhões. Ele ia contraído, curtindo o tesão como podia… e fingindo que dormia. De quando em vez olhava à volta, furtivamente, e voltava depois a semicerrar os olhos… Eu… afectava também um ar distraído fazendo de conta que não via ou que achava normal o que estava vendo… A situação “difícil” do rapaz só terminou quando a rapariga se levantou e saiu… Senti-lhe a falta... Tive pena: não percebi porquê.
E quando, finalmente, todos se foram, cada um à sua vida, e de todos só restou, no autocarro - como se fosse um cemitério -, o tumular “silêncio” que deixaram - reduzido ao ronronar cavernoso do motor –, voltei a ter pena… e desta vez percebi: …era de mim que eu tinha pena. De quem havia de ser?

Da última vez que fui ao Guincho. Foi diferente: eu sabia – era certo - que a vida não tem regresso - e senti vir-me a amargura da certeza de que não ia - nunca mais - voltar a sentar-me lá em baixo nas pedras, a ver o mar… E vir-me também a certeza - de que, quando chegar a minha hora, irei ver ainda, nos teus olhos, o verde do mar, lá em baixo, a despedir-se de mim. Agora que o mar tem também a certeza de que eu não vou voltar. Nunca mais. 
salvadorprata@netcabo.pt

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