Buba
21 agosto 2006
 

FRANÇA – Não sei se te recordas duma aula em que o Taveira, enquanto ia avançando, por entre as nossas carteiras, nos pôs uma questão: a de saber quem tinha escrito um texto, que ele, enquanto andava, ia debitando de memória, e que terminava com uma referência ao período em que Portugal esteve ocupado pela Espanha: - uma piroseira que rezava assim: - …"os espanhóis que nos houveram cativos por sessenta anos"…

…Andávamos no Gil e, no 5º ano, tu já escrevias no DIABO e de Literatura – pelo menos da francesa – já tinhas lido e sabias mais que o nosso excelente professor de Português – Latim.

Declamado o "hino" laudatório á indómita raça lusitana, o Taveira perguntou: Quem foi o grande escritor português que escreveu este texto? Moita. Ninguém sabia. Olhámos todos para ti. Mas tu…nada. Sorrias… Os "melhores" aventuraram: - Oliveira Martins! … Herculano! …E lá detrás, o Vasco, sempre provocador, atirou: -Bocage! "Sua bésta!" casquinou o Taveira, num dos seus dizeres de escárnio e de chacota em que também era mestre…E depois, vendo que ninguém acertava – e tu não abrias bico – revelou finalmente – entre o sério e o sorridente – o nome do autor do texto: Taveira Sarmento!


Alguns riram da graça. Outros riram do Taveira e outros riram do texto.

Só tu, França, esfíngico, continuaste a sorrir…


…………………………………………….


Aos da 5ª A, do Gil, que por mais de oitenta anos a vida houve e ainda mantém cativos – eu – passados que foram setenta – pergunto, tal como fez o Taveira: Quem é que escreveu o texto que vou transcrever de seguida?


França: Tu, que em Literatura, continuas a ser – dos que restam – o melhor de todos nós, diz-nos: - Quem foi que escreveu o texto? Terá também sido o Taveira… ou terá sido algum fantasma dum tempo que foi o nosso?

Não sorrias… E não me chames, entre – dentes, o que o Taveira chamou ao Vasco… Um abraço.


TEXTO:

Uhland – Julgo poder concluir que para ti é dominante como valor mais alto o da convenção social. É assim?

Bissadoa – Não, a tua conclusão é errada: Pelo menos no que respeita ao aspecto que tens em mente. Por diversas vezes te afirmei já isto mesmo.

Uhland – Continuo a não compreender.

Bissadoa – Não compreendes ou não queres compreender?

Uhland – Não, sinceramente não compreendo; e o defeito será meu, que da tua parte, se de algum defeito enfermam as tuas palavras é sempre do excesso e não da parcimónia delas.

Bissadoa – A tua ironia é sempre duma maravilhosa subtileza e revela bem como és inteligente...

Ulhand – Perdoa-me.

Bissadoa – Perdoa-me tu, meu querido Uhland.

Uhland – Queres que continue?

Bissadoa – Como não, querido Uhland Sabes como gosto de te ouvir...

Uhland – Sei.

Bissadoa – Porque és sempre tão presumido, querido Uhland Dá-ta prazer a presunção?

Uhland – Bem sabes que não...

Bissadoa – (Guarda silencio e olha interrogativamente Uhland)

Uhland – É talvez porque sinto que é minha parte da tua alma...Por isso falo assim contigo. Para ti verdade é presunção!

Bissadoa – Porque usas sempre uma tortuosa maneira de dizer e de fazer as coisas, meu querido Uhland Dir-se-ia que te comprazes no complexo, no labiríntico e na análise do que não é, por natureza, analisável.

Uhland – Mas eu penso que tudo é analisável. Tudo o que existe. Só porque existe é real e terá de ter uma razão de ser que devemos, quando não conhecemos, tentar conhecer.

Bissadoa – Torturas-te inutilmente, meu querido Uhland; As razões da alma não as entende a razão. Não foi Pascal que o disse?

Uhland – Isso não é suficiente para que aceite a irracionalidade e a ininteligibilidade dos sentimentos. Haverá sempre uma causa: o instinto é uma hipótese...

Bissadoa – Não, meu querido Uhland. O que há são estados de alma. A alma de cada ser humano é como que um náufrago debatendo-se perdido no mar proceloso da insatisfação em busca de outras almas.

Uhland – Concordo contigo, querida Bissadoa. É isso mesmo que eu sinto também na minha própria alma. Entretanto, repara, tu emitiste um juízo sobre a alma e os estados da alma.

Bissadoa – Não meu querido Uhland, não emiti qualquer juízo nem é isso que importa. Importa, sim, sentir e o que se sente. O porquê se existe, estará na própria capacidade de sentir de determinada maneira e não de outra.

Uhland – Sim, e como explicas o não sentir?

Bissadoa – É importante para ti explicar também o que não existe?

Uhland – É.

Bissadoa – Não te basta a verdade e saber que existe Não é a verdade que procuras em mim e que eu procuro dar-te?

Uhland – Não sei. Para mim Não saber é a minha verdade. É registar o saber do que tu e todos sabem e eu não sei.

Bissadoa – Porque não encaras a realidade?

Uhland – Mas tu não vês, querida Bissadoa, que eu não vejo o que todos vêm Que meus olhos não vêm nas trevas do mundo. Que só vejo o que ninguém vê na claridade do que aqui não pertence e que está além onde pertenço e desejo ir.

Bissadoa – Meu pobre querido, como tu és infeliz.
Porque não vens sentir a verdade que eu tenho em mim e que eu quero dar-te; parte de mim e de ti que eu tenho em mim, Uhland?
Deixa Uhland que a tua alma se funda de vez na minha.

Uhland – Não, não me ensines a verdade. Deixa-me viver na ignorância, não me macules com o saber que tu sabes e eu não sei.
Não violes a minha ingenuidade, que é quanto me resta da minha verdade. Deixa-me ser eu.

Bissadoa – Que posso eu fazer por ti, querido Uhland?
Que posso eu dizer-te? Quisera estar contigo.
Fitando o teto branco imaculado e puro como tu. E deixar-me esquecida unida a ti pela teia dos nossos sentimentos. Das nossas alegrias e dos ressentimentos, qual cadeia de aço esmagando nossas almas a sangrar de amor, qual pira onde ardesse o fogo da paixão…
Eu amo-te, Uhland.

Uhland – Como me faz bem e me dói ouvir-te, querida Bissadoa.

Bissadoa – O que é para ti o amor, meu querido Uhland?

Uhland – Não sei dizer-te: É um misto de inocência, de candura, de perdão, um misto disto tudo e de nada disto. Qualquer coisa que é, que não se sabe o quê…

 
salvadorprata@netcabo.pt

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