Buba
22 dezembro 2006
 
MEUS QUERIDOS NETOS II

Venho falar-vos hoje de dois aniversários:
- O dos meus 84 anos; e,
- O dos 58 que já leva o meu casamento com a avó Ilda.

A PRENDA DA RITA
Antes do mais – e até porque já devia tê-lo feito há muito tempo – quero agradecer à RITA a prenda que me ofereceu no dia do meu aniversário.

Contou a Avó Ana que a Rita, preocupada, enquanto ia trabalhando na prenda que me queria dar…

perguntava, sem desviar os olhos do que estava a fazer: - Oh avó achas que tenho tempo de acabar? É que, na Escola, o dia em que fiz 84 anos – 24 DE OUTUBRO DE 2006 – tinha sido muito complicado e a Rita não tinha podido trabalhar na prenda que, de surpresa, tinha pensado dar-me, nesse mesmo dia, à hora do jantar.
Só por isso: - pelo esforço e, sobretudo pela aflição em que esteve – sem saber, se a podia ou não acabar, – a tempo de ma entregar – a prenda da Rita não tem preço... Obrigado meu amor.


Sentada, muito direita, de costas no restaurante. Quando cheguei, “senti” que ela me tinha “sentido” chegar. Não se mexeu. Via-se que estava tensa, não se voltou, não levantou os olhos. Aproximava-se o momento de me dar a prenda que tinha a seu lado, em cima da mesa, cuidadosamente guardada numa capa. E em certo momento – depois dos parabéns, das parvoíces de circunstancia e das hipocrisias da praxe – no momento certo, serena e determinada, a Rita levantou-se, agarrou na prenda e sem nunca levantar os olhos, como se estivesse a cumprir um ritual solene, entregou-ma como se a oferta fosse qualquer coisa de si mesmo…
Obrigada, Rita, mais uma vez. A recordação da tua imagem ao entregar-me a prenda vai ficar para sempre, indelével, gravada dentro de mim.

…E talvez que, mesmo decorrido que seja muito tempo e (embora já mal te lembrando de mim) se puderes ainda, ler o que agora escrevi – irás ter também saudades (tal como eu já tenho de ti e dos teus irmãos) dos netos que vocês um dia irão ter… – quando um dia um deles te oferecer, solene – como tu fizeste agora (como quem deposita um bouquet de flores na campa dum defunto) – a prenda de aniversário dos teus 84 anos...

O ANIVERSÁRIO DE MEU CASAMENTO COM A AVÓ ILDA


Aos 18 anos, quando a vossa avó era uma (linda) rapariga.

                                              ACONTECEU PORÉM
                                                       QUE A VIDA
       POR MOTIVOS QUE, SEM MOTIVO, POR VEZES A VIDA TECE
De repente, se lhe transformou num pesadelo… E à rapariga feliz, irradiando vida, querida por toda a gente, pura e sem pecado… aconteceu-lhe o que nem o diabo teria podido imaginar…
…Era ainda tempo – tempo maldito – do poder absoluto do pater família…
E certo dia, ainda manhã cedo, e mal acordada – foi levada, de surpresa e sem saber que tinha sido condenada à revelia, a cumprir pena de degredo e residência fixa, numa terra distante. Tendo-lhe assim sido brutalmente interrompido o curso de Letras que tinha começado, com anotação de qualidade feita pessoalmente pelo Prof. Delfim Santos.

                                    CERCA DE DOIS ANOS DEPOIS,
                                 NO DIA 3 DE NOVEMBRO DE 1948
                                                      FEZ 21 ANOS

E com a maioridade, chegou também, finalmente a LIBERDADE e o fim da pena de desterro e cativeiro: correu para junto do noivo que – embora tanto tempo, sem notícias e sem ter podido vê-la – continuava esperando por ela.

                                NO DIA 23 DE DEZEMBRO DE 1948
                                                         CASARAM

                                                            Porém,
                                       EM 13 DE JANEIRO DE 1949

Já a má sorte condenava os dois a novo desterro e residência fixa, por mais cinco anos noutro lugar não muito distante do lugar, do qual – 8 semanas antes, a MAIORIDADE a tinha libertado. E para sobreviver, para ali ficaram. Enterrados vivos. Longe de tudo e de todos. Só os dois. Sem mais ninguém.
Como se lhes tivessem rogado uma PRAGA, ou fosse uma MALDIÇÃO.

Não quis Deus que alguma vez tivessem sido reveladas as razões (ou alguma vez tivessem sido perguntadas ao carrasco executor) da sentença sem crime que Deus permitiu.
Porque aconteceu o que não era possível que pudesse acontecer?
Terá sido Praga ou foi Maldição? Ou foi, simplesmente,

                                        A FORÇA DO DESTINO?

Hoje, perto do fim continuo a perguntar-te – a Ti, meu Deus: - Porquê? Terá sido para por à prova como forte e puro era o nosso amor? E se assim foi, espero que lhe dês, a Ela (à mulher que por mim deixou tudo e que, durante 58 anos ficou junto de mim), a recompensa justa pela Vida que eu, sem culpa, não lhe deixei viver... E peço-te também, mais uma vez – como todos os dias peço à Virgem Maria, minha e Tua Mãe – Que, quando chegar a hora de a levares, a guardes bem junto de Ti. Que ela bem o mereceu. Tu sabes…

                                       MÃE E AVÓ DE ELEIÇÃO

                                      

                NO DIA 3 DE NOVEMBRO DE 2006 FEZ 79 ANOS

                                                NÃO MUDOU




ILDA
Por tudo o que fizeste pelas nossas filhas e netos: - de renúncia e dádiva de ti mesma, e por mim que sempre te amei, mas que não te mereci.
Partilho contigo, em acto de contrição, – e porque és tu e não eu que a merece – como prenda de aniversário do nosso casamento, a prenda de aniversário que Rita me deu no dia em que fiz 84 anos.

                                              PARABÉNS

                     
                                       
  BOM NATAL

É o que o Buba vem desejar a todos os amigos e simpatizantes (…mais ou menos 10 segundo creio) que desde há quatro anos, regularmente ou de vez em quando, o vêm visitar: o Adriano e o Nuno do “Macacos Deuses”; a Alessandra Giovana Borges; a Almacave; a Ana Cardoso; a Cláudia Dias; o Deckard do “Relógio Parado”; o Eduardo e a Thita do “Bloguices”; o Gongas do Blog “Ex-Caloiros”; a Inês do “Moleskine”; a Inês Rapazote do “Um Bigo Meu”; a Joana Gorjão Henriques; o José Costa do “A Triste Sina”; a Júlia Matos Silva; a M. Conceição; a Madalena do “Chora Que Logo Bebes”; a Sandra Regina Prata. Peço desculpa a algum de vocês que, por falha minha, não mencione. Um grande abraço a todos.
Aproveito ainda este post para agradecer à Madalena Santos o e-mail que me mandou no passado dia 15 de Dezembro.
…Sabes Madalena: - aconteceu que ao ler o teu e-mail fui ver o
Chora Que Logo Bebes e verifiquei que no dia 5 do corrente o Buba tinha sido nomeado para a atribuição do Prémio da Academia dos melhores blogs do ano. Fiquei, como podes calcular, surpreendido. Até porque o único prémio que me lembro de ter ganho por ter tido a nota mais alta numa disciplina, andava eu ainda no 3º ano do liceu: foi há mais de 70 anos… Depois disso, as notas mais elevadas que tive (de ouvir) foram as emitidas através das cordas vocais da Dra. Magalhães Colaço, ao ouvir enlouquecida as barbaridades das respostas que eu dava no exame de Internacional Privado. Em compensação, na pauta, da partitura do exame, escreveu uma única nota final (aqui a musica era outra…) de tom baixo, grave, muito grave mesmo… Apesar do que, ficámos amigos para sempre.
Mais tarde, procurei-a para me “ver” um articulado que fiz num caso muito difícil. Telefonei-lhe e combinámos que me receberia na Faculdade. Tive o azar de chegar atrasado 4 ou 5 minutos. Foi lindo: - nunca tinha ouvido, nem espero ouvir, em toda a minha vida insultos, impropérios, gritos tão altos. Nem à Yma Sumac…
Depois calou-se e ouviu concentrada a “história” do caso. E quando acabei perguntou-me: - O que é que você escreveu? Dei-lhe a minuta. E à medida que ia avançando na leitura, via nascer-lhe nos olhos um sorriso discreto. Levantou-se e sem me devolver os papéis, disse: - Se precisar de ajuda telefone. Mas se voltar a chegar tarde, nem o recebo. Perguntei-lhe quanto lhe devia. Nem me respondeu.
Pronto Madalena. E a ti, depois deste desvio (talvez um tanto a despropósito, mas que me permitiu deixar também uma nota de amizade e respeito por uma mulher de eleição), mais uma vez obrigado.
Mas deixa-me ainda, por último, que te confesse que não sei o que fazer de tão distinta nomeação para o Prémio da Academia. Oxalá não perca a cabeça, como aconteceu ao Saramago quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura que lhe foi concedido pela Academia Sueca. Lembras-te? Quando foi abordado pela Imprensa e começou aos coices a dizer que não respondia a nada do que lhe perguntavam e quanto ao milhão de Euros que tinha ganho, que não dava um tostão a ninguém: - o dinheiro era dele e queria que os outros se lixassem.
É este senhor (a quem não atribuo qualificação, por ser inqualificável…) e de cuja vasta obra literária só li uma ou duas dúzias de linhas do “Levantado do chão”, que considero o melhor escritor português. De sempre.
Hoje fico por aqui. Um grande beijo.
 
06 dezembro 2006
   
04 dezembro 2006
 
D. Duarte diz que Cavaco tem agido como “um presidente-rei”.
Cavaco diz que o Sócrates tem agido como um príncipe perfeito.
 
salvadorprata@netcabo.pt

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