Buba
09 fevereiro 2007
   
Aborto: SIM OU NÃO?
Carta aberta a Sua Eminência o Cardeal Patriarca D. José Policarpo.


Eliminei o post. Não me revi nele. E, entendê-lo, julgo que não terá havido ninguém. Se é que alguém conseguiu lê-lo. Repetiu-se o que, há muitos anos, já me tinha acontecido. Foi assim:

Eu tinha prazo para entregar um recurso para o Supremo.
Na Relação, apesar de eu ter carradas de razão, julgava eu, os Desembargadores provaram ser os burros do costume quando e na hipótese de nos dizerem que não temos razão – E foi assim que me lixaram e, sem o dizerem, expressamente, acharam que eu não dizia a verdade toda – e era verdade – e só tinha alegado o que me convinha; de tudo o que sobre o assunto, com certeza os mestres na Faculdade tinham tentado ensinar-me e, pelos vistos, – pensariam os Desembargadores –, sem grande resultado. Eu, já batido nos truques e nas manhas do foro, apercebi-me já tarde, que por meu azar e contra o costume, algum dos Desembargadores estava acordado quando leu as minhas alegações do recurso.
Posto perante a situação, meti-me em brios e pensei: cabrões! Eu vou mostrar a estes gajos com quem estão metidos. Irei outra vez perder a merda do recurso, mas aquelas bestas de saber, auto alcandorados ao nível dos deuses, e como eles omniscientes, infalíveis, perfeitos, vão ter que sofrer como cães e puxar pelo bestunto se quiserem provar, mais uma vez, que eu não tenho razão. Porque que a não tenho, só eu sei. Mas só eu. O melhor, ao nível dos deuses, infalível, e não eles, incipientes aprendizes de feiticeiro. E, vai daí, gritei, para comigo mesmo, gritando em alta grita: “imos a eles”. Fui procurar a Virgem, ao nicho onde a tenho em minha casa, contei-lhe o que se passava e pedi-lhe que me “cobrisse”, que ia lançar-me na batalha derradeira.
E, sem sequer ter ouvido a resposta que certamente me deu, comecei a juntar munições: ideias, argumentos, textos de lei, acórdãos, que os havia – e há sempre para todos os gostos… – e comecei a escrever. Mas as ideias, os argumentos atropelavam-se uns aos outros, como se fosse uma chuva de estrelas ou chuva de lágrimas de foguetes. E eu ia alinhando mais e mais, inúmeros argumentos, intermináveis. E de tal modo que, ao fim de pouco tempo, tinha tanto material, notas, apontamentos, pedaços de textos que a certa altura, fiquei soterrado perante tanto papel com notas, rascunhos, por vezes ilegíveis, sem qualquer hipótese de poderem ser utilizados. Comecei a enervar-me por ver o prazo a correr e começava novamente a escrever outro texto semelhante ao primeiro, ou seja, a repetir e, sem o querer, o que já tinha dito doutra maneira diferente. Depois queria ver se me faltava alguma coisa que tivesse dito noutro texto ou noutro papel qualquer: e começava novamente a ler seis, sete, oito vezes e, entre eles, achava um ou uma parte de um e dois ou três pedaços dos outros que me pareciam melhores, só que lhes faltava ainda pormenores que eu sabia que constavam de outros papeis quaisquer perdidos no meio de outros… largava o primeiro, pegava noutro e depois…pegava noutro… resultado: ia dando em doido: a ver os dias a passar e eu…nada.
O meu colega de escritório, admirado, sem perceber a razão da demora, dizia-me:” então, o recurso?” E eu:” está quase!” “Quase? traga isso e nós dois (muitas vezes era assim) fazemos isso numa hora…” “Obrigado, dizia eu. Eu faço aquilo sozinho…” Resultado: tenho a perfeita consciência de que, como advogado, fiz muita coisa razoável e também fiz muita coisa menos boa, mas merda, como aquilo, é que nunca. Excedeu tudo. De tal maneira que eu nunca tive coragem de mostrar ao meu colega aquela porcaria, porque, se o tivesse feito, corria o risco de ele deixar de me falar e fazer constar que não me conhecia ou de dizer, mesmo, de que não tinha a mínima ideia de quem eu fosse.
Em suma, o resultado de tudo foi um tremendo e merecido bofetão dos conselheiros e alguns terem passado (até antigos colegas bastante burros) a olhar para mim com um ar apreensivo. E, para mim, pessoalmente, foi uma experiência de tal modo gratificante que, passado algum tempo, deixei a advocacia que, quando a exerci, assumiu, sobretudo, a forma de jogos de inteligência com base no saber, e tendo, como ideal, ajudar a fazer justiça.
…E antes de prosseguir, não resisto a dizer que este espírito era o meu e, em geral o dos meus colegas, orgulhosos da toga que vestiam. Antes de a Advocacia se ter tornado actividade de sociedades de advogados, em que dezenas deles, são meros empregados por conta de outrem e cujo objectivo deixou de ser a justiça, sobretudo na defesa dos humildes, dos que nem sequer sabem ler, quanto mais os direitos que a lei lhes confere -e a quem por sua vez, os órgãos do Estado que os deviam garantir são, quantas vezes, parece que, sadicamente, os que mais se encarniçam em denegar justiça, desprezando, ostensivamente e perante a passividade geral, os direitos mais elementares do cidadão e, em especial, o seu direito mais sagrado, como pessoa, a liberdade.
Fica o desabafo. E, prosseguindo…
Amanhã ou depois, vamos continuar a tentar dizer aquilo que antes não conseguimos. Se Deus nos ajudar.
Entretanto deixo-vos a única coisa do post que, julgo, valeu a pena: a Virgem Maria a chorar. Talvez com pena de mim.


 

Avé Maria
Cheia de Graça
O Senhor é convosco
Bendita sois Vós
Entre as mulheres
Bendito é o fruto do Vosso ventre
Mãe
 
salvadorprata@netcabo.pt

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