Buba
29 dezembro 2007
   
O MEU PRESÉPIO
O Presépio que fiz, num recanto da minha casa, celebra, duma forma diferente da tradicional, o nascimento de Jesus.

Que para mim simboliza o sinal divino da
IGUALDADE DO SER HUMANO no NASCIMENTO e
no JULGAMENTO FINAL perante o Juiz supremo…
 

Acolitado pelas cavalgaduras do costume…

…No dia em que se completaram 59 anos de casados… e enquanto tentava aquecer as mãos geladas da minha mulher, recordei-me dum episódio que ocorreu – e a que assisti – quando, embora já casados, ainda só haviam passado dois ou três… Vivíamos, nessa altura, num Concelho, muito pobre e muito frio, do interior do país, onde eu., a custo, embora já Licenciado, tinha arranjado um modestíssimo emprego. Na Câmara Municipal. De que era Presidente um comerciante, filho da terra... Pertencia a uma extinta estirpe de pessoas semelhantes a troncos de árvores, muito antigas, com raízes fundas na terra - gente de trabalho, honesta, com quem se podia contar... O Luís Nunes era desses… Tinha uma “venda” na loja do prédio, onde vivia. Dum lado vendia… vendia tudo, como, ao tempo, era costume; e do outro, era taberna. Tinha uma tábua a separar, os dois espaços porque, por lei – (nesse tempo – e julgo que, em todos – a “higiene” dos alimentos… e a burocracia… foram sempre a mesma merda). Não podiam estar juntos os dois estabelecimentos. De forma que, o Luis Nunes tinha mandado fazer (ou fez ele, não sei…) uma divisória com uma folha de contraplacado e, na altura já empenada, com um buraco no meio, que servia de porta, que não existia, entre um lado e o outro… Estava sempre a cair… não servia para nada. Só para estorvar… Mas cumpria-se a Lei. Entre nós foi sempre assim… à portuguesa: - só para inglês ver …
…Naquela manhã de Dezembro estava um frio de morrer – uns graus abaixo de zero – quando vim à “venda” do Luis, para me assinar um papel qualquer… Estava agachado no chão... à frente dele, um miúdo. Muito pequeno ainda. Talvez cinco, seis anos. Franzino… tremia… o frio era muito…
…Quando, no dia em que fiz 59 anos de casado, agarrei nas mãos geladas de minha mulher e as aqueci nas minhas … Voltei a “ver”, o Luis Nunes: - agachado, um joelho no chão, a aquecer as mãos do filho… Há coisas na vida, imagens, expressões, sei lá… que ficam gravadas… Voltei a ver o Luis, agachado nas lajes, apertando nas dele, as mãozitas do filho …e voltei também a ouvir o Luis Nunes, – meio envergonhado – quando levantou os olhos e surpreendido. me viu: - “Estava aqui a aquecer as mãos a este desgraçado!”…
Foram, as palavras do amor mais puro, dum Pai a um Filho – que ouvi e ficaram para sempre gravadas em mim, com as duas figuras -do mais belo presépio, que vi na minha vida…
 
24 dezembro 2007
   
SEGREDO DOS DEUSES

23 de Dezembro de 1948
23 de Dezembro de 2007


a Ilda e eu



Está frio. Hoje está muito frio. A Ilda chegou agora da rua. Agarrei-lhe as mãos geladas e meti-lhas debaixo dos meus braços. Abracei-a e tentei aquece-la um pouco. Esfreguei-lhe as costas e apertei a minha cara junto aos cabelos dela. Está fria Está muito fria…
Quando lhe agarrei nas mãos e as pus debaixo dos meus braços, também senti muito frio … Mas continuei a apertá-la contra mim e deixei que a minha boca continuasse junta aos cabelos dela a respirar ar quente, ao mesmo tempo que lhe pontilhava com a língua, o pescoço, as orelhas. Como quando tínhamos 20 anos… Encolheu-se, protestou, tentou libertar-se. “Estás-me a fazer cócegas”… riu-se. Nervosa… Senti - vindo dela - não sei o quê… E ela, - senti que também sentiu…e percebeu, que, das mãos dela, apesar de geladas - milagre de Jesus - caía calor dentro de mim…
…Depois...não sei... se, não obstante os “protestos” murmurados - como mandavam as regras do recato e de decência às meninas do seu tempo… para além das minhas, a mão do menino terá feito nela o mesmo milagre que fez comigo: - fazendo também cair, dentro dela, o meu calor... Não sei… Que esta espécie de “milagres”, quando acontecem com senhoras de outros tempos, recatadas, decentes… só Deus sabe... É segredo dos deuses.

Querida Ilda.
Muito tempo passou…uma vida. Para ti, eu sei, de mim. Nem sempre tudo foi bom. Para mim, do quase nada que foi bom, o melhor, foste tu… Obrigada. Salvador.
 
salvadorprata@netcabo.pt

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