Este post usa linguagem suja, ordinária, que foi a entendida mais adequada e ao nível de uma atitude do Scolari, seleccionador da equipa de futebol de Portugal, no decurso do Europeu de 2008. Buba
SCOLARI
É portuga de lei. E esta verdade como punhos nada tem a ver com o Acordo Ortográfico, nem com o que diz o Graça Moura. O Scolari provou-o quando embora no exercício de funções – funções em que cagou – enfiou uma murraça nas trombas de um jogador, que o chateou. E pronto. O portuga é isso mesmo: peido e coice… Uma besta. Que o Scolari também era… Com honra. Julgava eu… …E já agora, que estou com a mão na massa, – e antes de continuar – reparem também nos olhos do Nuno Gomes: E vejam que nos olhos dele não há nem sombra de crítica ou de desaprovação ao desforço do Scolari. Nos olhos do Nuno Gomes o que se vê é que está a avaliar da eficácia do murro do Scolari para produzir o correctivo que se impunha. Pela minha parte gostei…Também portuga achei até que foi uma boa decisão… E que pena foi que o Scolari a não tivesse tomado mais vezes enquanto esteve entre nós. E sobretudo que não tivesse dado também a alguns jogadores da nossa selecção – que por vezes bem o mereciam – uns bons murros no focinho… Eu acho…
Quanto ao resto e quanto a mim, não foi o murro – bem dado e a pedir bis – que esteve mal no Scolari. O Zidane – eleito 3 vezes o melhor jogador do mundo – fez o mesmo não há muito: - foi para os cornos a um filho da puta que chamou puta à mãe dele…Tudo bem…
O que esteve mal no Scolari, acho eu – e não lhe perdoo – foi ter-nos dado a todos – portugueses e brasileiros – Himalaias de fé na vitória da equipa de todos nós. (…até eu que nem vou em a Footbois e sei a merda nojenta que isto é… andava nervoso…) E depois, esta: - que foi como quem me deu uma patilhada nos tomates!.. a troco de mais uns tostões… – fazer a sujeira de nos virar as costas – sem aviso… Eu nem queria acreditar… Isto foi quási o mesmo que um gajo andar a “galar” – para se “colocar” nela – uma gaja muito boa… E quando pensa que a tem quási na cama, ela faz-lhe um manguito e vai com outro… É de ficar marado… Ficou a Espanha, eu sei, mas não é a mesma coisa: - Porque há diferenças entre uma coisa e outra: - é que se Portugal ganhasse era como ir com a gaja boa e fazer um festival, agora resta a consolação de ganhar a Espanha, que é como, à falta de melhor, fazer uma sarapitola… a malta goza, ninguém nega, pode até dar uns berros…mas no fundo não é a mesma coisa…
Que se terá passado na cabeça do Scolari?… Precipitou-se? Não pensou? Talvez tivesse sido isso. Não sei. O que sei… Do que tenho a certeza é que foi burro: - Burro porque não percebeu que no Chelsea nenhum outro português poderá nunca mais ser treinador depois de lá ter estado o Mourinho. E antes do mais porque o Chelsea é um clube inglês. Não é a selecção de Portugal, do Brasil ou de qualquer dos outros países, Angola, Guiné, Cabo-Verde… onde as pessoas falam – e muitas delas, sem sequer saber ler, – mas que se entendem bem… Porque, no fundo da alma, todas sentem em português com paixão, com entrega total, quando se trata do Benfica, do Sporting, do Eusébio, do Mourinho, do Figo, do Ronaldo… Põem a bandeira no carro, nas janelas, enrolam-se nela e berram “Heróis do mar…”, fazem um cagaçal que nunca mais acaba. Porquê? Porque são todos da mesma “massa”… E é por ser também da mesma massa que o Scolari foi capaz de espicaçar nos jogadores da selecção esse desejo, essa paixão, esse fanatismo, também dele, porque, quando se trata de parentes chegados (filhos, pais, mães, netos, avós…) – e por mais que o queiram por vezes os sábios das Academias de um e outro lado – não lhes é fácil distinguir ou separar portugueses e brasileiros. E as vitórias e as derrotas das selecções de futebol de Portugal e do Brasil são um problema só nosso, um problema de família. Os portugueses pedem a vitória à Nossa Senhora de Fátima. O Scolari reza à Nossa Senhora de Caravaggio…
Vendeu-se por um prato de lentilhas. E com isso terá sido o responsável pela eliminação de Portugal, deixando que os jogadores só na fase decisiva da competição tivessem sabido que o Scolari os atraiçoara, nas suas costas, às escondidas, sem nada lhes dizer, deixando-os sozinhos e entregues à sua sorte, já a pensar noutra equipa, noutros jogadores, noutras vitórias que para ele, por mais meia dúzia de tostões, passaram a ser mais importantes do que a vitória ou a derrota da selecção de Portugal nos quartos de final do campeonato da Europa. Não vai esquecer… Penso por isso Scolari só com dificuldade alguma vez voltará a ser o seleccionador da equipa nacional.
E em Inglaterra, preconizo que também não lhe vai ser fácil ser treinador do Chelsea. Porque, penso eu, o que ele fez não vai ser deixado cair, sem o reparo dos jornalistas ingleses... Vão de certeza chatear… E não só por isso… Mas também e sobretudo porque antes dele foi treinador do Chelsea, um senhor chamado Mourinho. E Mourinho, teve, durante um desafio, um comportamento que o definiu e o impôs a jornalistas de escol da mais qualificada imprensa desportiva do mundo… E tem nos genes a íntima pulsão da superioridade da Inglaterra e de tudo o que é inglês. Donde que, só o facto de o treinador de um dos maiores clubes da Inglaterra (onde o futebol nasceu) ter à sua frente um treinador português – um selvagem – como eles sempre chamaram aos portugueses – porc and beans – é uma afronta, uma vergonha que, no fundo, um jornalista desportivo inglês só pode suportar com dificuldade… Pois o Mourinho (e isso está documentado) durante um desafio foi até junto ao banco dos jornalistas – que estavam a proferir comentários chocarreiros e dichotes – a gozar – e pondo o indicador no nariz – como quem impõe a sua autoridade, compostura e silêncio a crianças – mandou-os calar.
O efeito de surpresa do comportamento do Mourinho – transmitido em directo pela Televisão para milhões de espectadores em todo o mundo – foi o reconhecimento, a nível global e em directo, do escol mundial dos jornalistas desportivos de que estavam perante um líder. Que demonstrou ter, para além da qualidade técnica, a personalidade e o perfil adequados a um treinador de um clube inglês com a categoria do Chelsea… E o Mourinho, a partir daí, passou a ser respeitado em Inglaterra e até idolatrado pelos miúdos das escolas ingleses, que quando ouviam falar em Portugal começavam a gritar em uníssono, Mourinho! Mourinho!... Não creio que o Scolari, no Chelsea, venha a atingir, a murro, prestígio semelhante ao do Mourinho. E daí, quem sabe? É que a Inglaterra foi também o berço do Box… Mas ainda que assim possa vir ser, a baixeza do que fez aos jogadores e aos portugueses em geral, julgo que não terá escapado aos jogadores portugueses que jogam no Chelsea e, pelo menos esses, no balneário, intimamente, vão olhar o Scolari de soslaio... E se assim for, como é esperável que suceda, não é um bom princípio. Em Portugal deixou uma nódoa negra que, ainda que voltasse, julgo não permite que alguma vez as coisa voltem a ser como foram… E exactamente porque o Scolari traiu o sonho de nós todos, portugueses, a quem na grande maioria – não resta mais nada de que tenham orgulho para além da sua equipa nacional de futebol, símbolo e concretização viva do que nós de melhor somos capazes… E Scolari traiu essa fé – a quase certeza de concretização – que os portugueses tinham depositado nas mãos dele, Scolari… Que em Portugal ganhou milhões e foi idolatrado... E esquecido de tudo, foi-se embora, Traiu a nossa confiança nele… e traindo, frustrou o nosso sonho. É um vulgar mercenário. E na Europa do Futebol, envergonhou-nos a todos, Portugueses e Brasileiros.
¶ 6/30/2008 03:56:00 PM
Tal como aconteceu com a “Carta a D. Policarpo”, eliminei o post que escrevi para o Dia dos Namorados. E resolvi eliminá-lo depois de ler um e-mail que a minha filha Rosário me mandou e no qual um homem já velho, talvez até mais velho do que eu – e talvez até mal sabendo ler – conseguiu dizer, em poucas palavras, o que eu em duas ou três dezenas delas não consegui. Eliminado o post primitivo escrevi, outro. Mas também desta vez, sinto que não cheguei lá… O homem do e-mail – talvez mais velho e talvez até mal sabendo ler – chegou.
¶ 2/17/2008 10:35:00 PM
08 Fevereiro 2008
ANTES DO MAIS:
AOS VISITORS E AMIGOS DO BUBA Que se me dirigiram por e-mail e aos quais não respondi e que foram, tanto quanto pude apurar, o Diogo, a Mila, a Dra. Maria Trigoso, a minha Neta Ariadne e a Baby, nova e brilhante Mayor de Sea Bright, N.J… com as minhas desculpas pelo que aconteceu e que se deve ao facto de o meu endereço de e-mail ter sido alterado, sendo actualmente o seguinte: salvadorprata@netcabo.pt. …E por último a ti, Madalena e ao teu Chora-que-logo-bebes. Que te hei-de eu dizer? Eloquor non possum prae lacrimis? como disse Virgílio?… Não. Não é isso. Tu sabes… Tu sentes... Obrigado.
¶ 2/08/2008 04:26:00 PM
04 Janeiro 2008
NO DEALBAR DE 2008
- A TODOS os amigos Do BUBA Um aceno de AMIZADE e o pedido de desculpas pelo silêncio prolongado: - tumular e premonitório. Decorrente dos 85 anos.
António Gedeão …Disse que o sonho comanda a vida… O esfumar do sonho mata a vida. Eu sei: - matou a minha – É a vida... A vida sem sonho, sem ESPERANÇA, não tem FUTURO. ...Sem Sonho…Pessoa: …a Vida não Vale a pena.
QUERIDOS AMIGOS de Vila do Conde…… Vão. Rumo ao FUTURO com FÉ na VIDA. No SONHO…
Vou contar-vos outras histórias. Não, histórias que eu tivesse imaginado, como as que vos contei; mas histórias da minha vida. Eu volto. Prometo. Avô Salvador.
¶ 1/04/2008 06:38:00 PM
29 Dezembro 2007
O MEU PRESÉPIO O Presépio que fiz, num recanto da minha casa, celebra, duma forma diferente da tradicional, o nascimento de Jesus. Que para mim simboliza o sinal divino da IGUALDADE DO SER HUMANO no NASCIMENTO e no JULGAMENTO FINAL perante o Juiz supremo…
Acolitado pelas cavalgaduras do costume…
…No dia em que se completaram 59 anos de casados… e enquanto tentava aquecer as mãos geladas da minha mulher, recordei-me dum episódio que ocorreu – e a que assisti – quando, embora já casados, ainda só haviam passado dois ou três… Vivíamos, nessa altura, num Concelho, muito pobre e muito frio, do interior do país, onde eu., a custo, embora já Licenciado, tinha arranjado um modestíssimo emprego. Na Câmara Municipal. De que era Presidente um comerciante, filho da terra... Pertencia a uma extinta estirpe de pessoas semelhantes a troncos de árvores, muito antigas, com raízes fundas na terra - gente de trabalho, honesta, com quem se podia contar... O Luís Nunes era desses… Tinha uma “venda” na loja do prédio, onde vivia. Dum lado vendia… vendia tudo, como, ao tempo, era costume; e do outro, era taberna. Tinha uma tábua a separar, os dois espaços porque, por lei – (nesse tempo – e julgo que, em todos – a “higiene” dos alimentos… e a burocracia… foram sempre a mesma merda). Não podiam estar juntos os dois estabelecimentos. De forma que, o Luis Nunes tinha mandado fazer (ou fez ele, não sei…) uma divisória com uma folha de contraplacado e, na altura já empenada, com um buraco no meio, que servia de porta, que não existia, entre um lado e o outro… Estava sempre a cair… não servia para nada. Só para estorvar… Mas cumpria-se a Lei. Entre nós foi sempre assim… à portuguesa: - só para inglês ver … …Naquela manhã de Dezembro estava um frio de morrer – uns graus abaixo de zero – quando vim à “venda” do Luis, para me assinar um papel qualquer… Estava agachado no chão... à frente dele, um miúdo. Muito pequeno ainda. Talvez cinco, seis anos. Franzino… tremia… o frio era muito… …Quando, no dia em que fiz 59 anos de casado, agarrei nas mãos geladas de minha mulher e as aqueci nas minhas … Voltei a “ver”, o Luis Nunes: - agachado, um joelho no chão, a aquecer as mãos do filho… Há coisas na vida, imagens, expressões, sei lá… que ficam gravadas… Voltei a ver o Luis, agachado nas lajes, apertando nas dele, as mãozitas do filho …e voltei também a ouvir o Luis Nunes, – meio envergonhado – quando levantou os olhos e surpreendido. me viu: - “Estava aqui a aquecer as mãos a este desgraçado!”… Foram, as palavras do amor mais puro, dum Pai a um Filho – que ouvi e ficaram para sempre gravadas em mim, com as duas figuras -do mais belo presépio, que vi na minha vida…
¶ 12/29/2007 01:34:00 AM
24 Dezembro 2007
SEGREDO DOS DEUSES
23 de Dezembro de 1948 23 de Dezembro de 2007
a Ilda e eu
Está frio. Hoje está muito frio. A Ilda chegou agora da rua. Agarrei-lhe as mãos geladas e meti-lhas debaixo dos meus braços. Abracei-a e tentei aquece-la um pouco. Esfreguei-lhe as costas e apertei a minha cara junto aos cabelos dela. Está fria Está muito fria… Quando lhe agarrei nas mãos e as pus debaixo dos meus braços, também senti muito frio … Mas continuei a apertá-la contra mim e deixei que a minha boca continuasse junta aos cabelos dela a respirar ar quente, ao mesmo tempo que lhe pontilhava com a língua, o pescoço, as orelhas. Como quando tínhamos 20 anos… Encolheu-se, protestou, tentou libertar-se. “Estás-me a fazer cócegas”… riu-se. Nervosa… Senti - vindo dela - não sei o quê… E ela, - senti que também sentiu…e percebeu, que, das mãos dela, apesar de geladas - milagre de Jesus - caía calor dentro de mim… …Depois...não sei... se, não obstante os “protestos” murmurados - como mandavam as regras do recato e de decência às meninas do seu tempo… para além das minhas, a mão do menino terá feito nela o mesmo milagre que fez comigo: - fazendo também cair, dentro dela, o meu calor... Não sei… Que esta espécie de “milagres”, quando acontecem com senhoras de outros tempos, recatadas, decentes… só Deus sabe... É segredo dos deuses.
Querida Ilda. Muito tempo passou…uma vida. Para ti, eu sei, de mim. Nem sempre tudo foi bom. Para mim, do quase nada que foi bom, o melhor, foste tu… Obrigada. Salvador.
¶ 12/24/2007 06:56:00 PM
13 Julho 2007
Sonho (ou tsunami?) dum domingo de Verão
Se eu tiver menos de 51% nas eleições do próximo domingo – o que equivale à recusa do povo de Lisboa em me dar a maioria absoluta para eu poder executar o meu programa… Renuncio – democraticamente (o povo é quem mais ordena) – ao direito de ocupar o lugar de Presidente e regresso ao meu lugar de segundo no Governo. Donde poderei fazer o que quiser de Lisboa, onde, paralisada, a Câmara (ardente) Municipal nada poderá fazer. Com a vantagem de eu poder, talvez, para além do toureiro que cortou orelha e rabo na garraiada municipal, vir a ser o matador que sai em ombros como o grande triunfador da tourada nacional.
Aborto: SIM OU NÃO? Carta aberta a Sua Eminência o Cardeal Patriarca D. José Policarpo (II)
Fui levar o cão à rua. O meu vizinho, sapateiro – sem as vestes de trabalho habituais – era domingo… “dia de ver a Deus e à Joana” – saiu-me ao caminho e enquanto falava: - Como está?! – meteu-me um papel no bolso da camisa. Disse-lhe: isto vai mal: Estou pronto: - Dói-me tudo! Olhou-me por momentos concentrado e sentenciou: é a P.D.I.. A P.D.I.? O que é isso? Perguntei. É a porra da idade, esclareceu. Concordei. Quando cheguei a casa tirei o telemóvel do bolso da camisa. Agarrado veio o papel que o gajo lá tinha metido. Vejam:
Surpreendido – não me lembrava… – perguntei-me: - que merda é esta? Depois recordei-me: - era o papel que o sapateiro me tinha metido no bolso… Intrigado, voltei a perguntar-me: - Quem é que terá convencido o sapateiro, de que eu é que sei quem é o Jeová? Só Deus sabe…
II – O MEU VIZINHO CANGALHEIRO
Ao fim da tarde, já lusco-fusco, voltei a levar o cão à rua. Encontrei outro vizinho, dono da agência funerária, localizada um pouco mais abaixo da porta do prédio onde moro.
Quase todos os dias, quando vou passear o cão, o meu vizinho cangalheiro me vê e vê como ando (… como me arrasto) cosido com dores, a ter que parar, depois de dar uma dúzia de passos – às vezes menos – e a necessidade que tenho de me “sentar” no capot de um qualquer dos automóveis que atravancam o passeio. E cumprimenta: Como está? Passou bem? Embora bem saiba – diz-lhe a larga experiência de lidar com mortos – que eu não tardo a ser mais um… no rosto, acima da linha do sorriso, vejo-lhe o brilho guloso do olho; e atrás do olho, como se estivesse impressa no pé da 3.ª circunvolução frontal ascendente (vulgo Centro de Broca) a pergunta: - “Quando é que o cabrão do velho deixa, de vez, de trazer o cão à rua?”. E, quase como se fosse seu parente – o que julgo, talvez não seja o caso – vai afagando o Buba com aparente ternura; embora, eu tenha a quase certeza de que os afagos do cangalheiro serão, no fundo, de natureza mais comercial do que afectiva: - tendo para mim, como certo, que o meu vizinho cangalheiro o que tenta é conseguir, assim, a preferência – do morto que praticamente eu já sou – na escolha da sua agência para me fazer o funeral. …Precisamente por isso, os gemidos de prazer do cão – filho da puta, hedonista – ao receber as carícias do cangalheiro, soam sempre aos meus ouvidos, meio surdos – já não descodificam o que ouvem – como se fossem os dobres de finados da sineta, à chegada da carreta à porta do cemitério.
III – O MEU FUNERAL
Quando voltei a casa, deitei-me sobre a cama para descansar um bocado e de cansado que estava, adormeci. Depois – e talvez por motivo das festas do cangalheiro ao cão – sonhei que tinha morrido... E enquanto sonhava, pensei: - ora ainda bem. Já não era sem tempo... Depois vieram – ou sonhei que tinham vindo – uns gatos-pingados que pegaram no morto que restava de mim e levaram tudo para uma capela mortuária. E lá fiquei. E, sendo certo que estava morto e não tendo, de momento, mais nada que fazer, resolvi pensar na minha vida. E enquanto assim pensava, ia passando o tempo, embora eu não soubesse exactamente, – porque estava morto – se estava a sonhar ou estava só a dormir. E em boa verdade, só poderia sabê-lo se voltasse a despertar o que não era de esperar uma vez, tudo levava a crer, que estava morto.
Entretanto vou continuar a pensar e amanhã logo vejo: - ou não acordo e confirma-se que estou morto, ou acordo e continuo a contar-vos o meu sonho. Agora vou mesmo dormir, se é que realmente ainda estou vivo, embora a sonhar que estou morto.
¶ 6/15/2007 06:01:00 PM
11 Junho 2007
MEUS AMIGOS
Catarina, Cláudia, Fátima, Lino, Margarida, Maria André, Marta, Nuno, Pedro, Roberto, Rui e Tânia,
Há já muito tempo prometi que vos ia mandar outra história. Não mandei: - é que, quando a reli, achei que era demasiado longa, repetitiva, cheia de entrelinhas... Resolvi por isso encurtá-la e tentar torná-la mais legível, menos cansativa: - cortei daqui, emendei dali e tanto mexi, que, como vocês vão ver, ficou praticamente reduzida a uma coisa sem pés nem cabeça. E na cabeça é onde eu, este tempo todo tenho andado a coçar sem saber como vou descalçar a bota… Pensei, pensei e, finalmente, como se costuma dizer, acabei por decidir: - o que não tem remédio, remediado está: portanto fica assim mesmo e pronto. Tal como a primeira história que vos mandei – a do Carvoeirito – também não dei fim a “Era uma vez um rei”; por uma razão: - é que a história do rei que agora vos mando é no fundo a história também sem fim da luta fratricida, entre os seres humanos pela posse, fruição (e delapidação) dos bens da Terra que, sendo só afinal uma infinitésima parte do Universo, suscitou, entre eles, desde sempre, problemas que persistem, sempre os mesmos, tal como os que na história se depararam ao rei.
…E embora custe a acreditar o certo é que os seres humanos continuam – e desde há milhões e milhões de anos, – a viver uns com os outros – na Terra, – a tentar tirar-lhe o equilíbrio, a delapidá-la, a destruí-la, comportando-se como tarados, psicopatas, a matar-se uns aos outros e a matar inocentes na ânsia paranóica da conquista do Poder e da posse do Ouro: Enquanto ao mesmo tempo chafurdam nas pocilgas da alma E depois morrem! Simplesmente… Se alguma vez vocês forem ao Google e pedirem o BUBA – é o blogue do avô – poderão ler outras histórias – e não só – que o avô Salvador lá deixou. …………….
E agora aí vai a história
ERA UMA VEZ UM REI… muito poderoso em cujo reino a vida decorria como no paraíso: - não havia miséria, nem maldade e as pessoas eram felizes. E a felicidade do povo era a felicidade do rei que a todos falava e ria com saudável alegria. Um dia porém, sem se saber como, alguém apareceu com um pedacinho de um metal desconhecido, amarelo e rutilante. Sabendo o rei do achado, logo mandou que o achador viesse a ele: e mais mandou que o metal fosse entregue aos sábios do reino; aos quais o rei logo também cometeu o encargo de estudarem o achado -o ouro – nome pelo qual, sem que se saiba porquê, o metal, começou a ser chamado e conhecido. … E logo que, passado foi algum tempo, vieram de novo os sábios ao rei a quem confirmaram ter grande valor a descoberta. Pelo que logo se encheu ao rei o coração de alegria. E logo também, ao saber dela, alvoroçados muitos se partiram em busca do precioso metal… E tantos foram que, algum tempo depois, dele havia já, tal abundância, que todos o possuíam. Por seu lado, também os cientistas e artífices não descuravam seu trabalho em seus laboratórios e oficinas onde iam descobrindo do metal, segredos e qualidades quer – quando entesourado, – como reserva da segurança de todos; quer quando trabalhado em jóias de rara beleza e de valor inestimável. Mas – logo advertiram os sábios – só pelo seu uso também sábio – moderado e prudente – os proveitos podiam ser melhor repartidos por todos. Entretanto porém e à medida que o tempo foi correndo aconteceu, o que até então, nunca acontecera, quando o ouro não existia: - é que, alguns, dos que o acharam, vendo quão grande era o valor dele, começaram excogitando que guardá-lo só para si, melhor coisa seria que entregá-lo sem mais ao rei para proveito de todos. E se bem o pensaram, melhor começaram a fazê-lo. De bondoso que era, ficou o rei desgostoso mandando em novos editais que todos os cidadãos continuassem a dá-lo nos reais armazéns e oficinas. Pois que só assim, os do Colégio poderiam continuar seus trabalhos no proveito e segurança de todos. Analfabetos, muitos dos súbditos não entendiam editais; e dos que os entediam, alguns não escutaram, do rei, o seu apelo. ...Mas nem assim o rei desistiu de prosseguir na senda do que pensava para todos ser melhor: - fazendo anunciar – para ultrapassar a situação, sem recurso à violência – que seriam dadas alvíssaras aos que, mais egoístas e cobiçosos – não quisessem dar o que, pensava ele – era património de todos – e antes preferissem recompensa. Mas nem assim foi conseguido do metal o necessário, pois se era certo ainda alguns o davam, e outros o vendiam, a maioria o guardava ciosamente e em tal quantidade que o volume das recolhas não chegava para suprir as necessidades das oficinas reais. Pois que, os que o possuíam tinham começado a utilizá-lo entre si como valor padrão nos grandes negócios que entre si faziam; começando também a ser usado como valor de pagamento das prestações de serviços, por parte de pessoas que o não tinham, às pessoas que dele eram abastados. Perante a situação arrepelavam-se já os sábios e os artífices em pânico, por fazer não poderem, à míngua do necessário, aquilo a que dedicavam as suas vidas. E arrepelava-se o rei e os seus ministros ao reconhecer sua impotência. Mandou então o rei, desesperado, reunir novamente todos os sábios do reino para, ainda mais uma vez, escutar deles o que pensavam ou sugeriam sobre o modo de sanar tão insólita como grave situação. Mas eles não sabiam o que ao rei aconselhar, pois que, se uns muito já sabiam do ouro, pouco, – mesmo os mais velhos, – sabiam sobre o egoísmo e a cupidez humana. Mas nem por isso se escusaram a dizer o que pensavam. E disseram uns que a culpa era do rei que oferecia miseráveis alvíssaras como compensação por dádiva de tão valioso produto…que mandasse o rei aumentar o montante das alvíssaras e logo o ouro viria caudaloso e abundante; e castigasse assim o povo, obrigando-o também a pagá-lo por preço mais alto. Outros porém se opunham pois aviltá-lo seria, torná-lo objecto de comércio, como vulgar mercadoria. Competia isso sim, ao rei, convencer os seus súbditos, – e qualquer que fosse a sua condição social – pela brandura e pela persuasão devendo fazer apelo ao altruísmo dos mais ricos, aos seus sentimentos de fraternidade ou mesmo de caridade ajudando os mais fracos, mais pobres ou mais humildes… Defendiam outros ainda que apelasse o rei à intervenção da Igreja e da Providencia divina… Mais radicais, pela negativa, aconselhavam ao rei alguns dos mais velhos – já desiludidos das rectas intenções dos homens – que nada fizesse… e deixasse as coisas como estavam. Pois que o tempo, que tudo transforma, à medida que fosse passando, resolveria por fim, aquilo que por insolúvel, por todos, agora, era tomado. E assim, ao sabor de opiniões tão diferentes, sucediam-se os éditos reais que, por vezes contraditórios, não só nada resolviam, como também, por vezes, contribuíam para aumentar a confusão. …Sem saber que decidir ou mais fazer, mandou o rei em desespero que os sábios e artífices se fossem também eles à descoberta de novos filões auríferos. O que fez muitos deles começarem a interrogar-se entre si, em jeito de conspiração: - mas que teremos nós, – artífices e homens de saber – a ver com tudo isto? Nós fazemos, e bem, o que a nós compete – Continuamos uns, aprofundando nossos estudos e experimentações; somos, outros, artífices de rara habilidade, fazendo jóias cada vez mais belas e valiosas… Que temos nós a ver com minas e filões? É a ele, ao rei, que compete resolver os problemas da governação. Pois que os resolva, ele que detém a força e o poder. Que escolha sábios que percebam de terrenos e jazidas. É de geólogos e mineiros que ele precisa, não de nós. E daí que decidiram ir – e foram – dizê-lo ao rei Que, abatido, reconheceu que tinham razão. …Sem atinar com solução mas também sem dela desistir, continuava o rei a ensaiar, embora sem resultado, novas ideias. Enquanto via também ir aumentando o descontentamento já que o tempo passava e não se vislumbrava melhoria. Nos concílios, ouviam-se já vozes exaltadas e em conciliábulos, arremedos de mal contido nervosismo. Fora deles, o povoléu também esbravejava clamando por justiça. Gritavam já uns, mais impulsivos, que também os sábios arrecadavam e faziam negócio com o metal; dizendo outros que possivelmente era o próprio rei que arrecadava lucro com a situação… que havia especulação abusiva, monopólios, interesses escondidos… tudo enfim se inventava e dizia como certeza porque ninguém sabia exactamente o que se estava a passar. E era tanta, a certa altura, a confusão que alguns sábios e artífices, começavam já de desertar montando suas próprias oficinas, para aí, mais em sossego, começarem a fazer aquilo que, pensavam, o rei deveria fazer e não fazia: - comprar por melhor preço aquilo que se obstinava a não pagar como devia e a vender também por preço abaixo do que devia. E chegaram as coisas a tal ponto que agora eram já alguns dos antigos sábios e artífices que por vezes vendiam às oficinas do rei, por preço exorbitante, aquilo que o rei, por melhor preço, não quisera comprar antes. Pois pagava-o agora mais caro (…no fundo era o povo que pagava), o que ainda mais fazia sofrer o rei. Que, nada ouvia que já antes não tivesse ouvido, nem sábio conselho que sem resultado já também não tivesse seguido…mesmo os que tinham vindo anunciar-lhe soluções milagrosas conseguidas em outros reinos distantes onde o malfadado binómio abundância – miséria tinha sido finalmente resolvido. Mas o rei, viajado e culto, encolhia os ombros, pois bem sabia que ao seu povo, não serviam as apregoadas soluções nem valiam as falazes teorias de sábios de outros reinos e países. Entretanto algumas oficinas, já competiam entre si: - à conquista de adesões, fazendo cada uma a propaganda dos nomes famosos dos sábios que orientavam as suas pesquisas com a invocação de pergaminhos e apelos à defesa da Honra, da Justiça, do Bem comum… E por fim, – já perdido por todos o norte e a vergonha – lançando mão de tudo: - do suborno, do compadrio, do tráfico de influências – para aumentar os seus proveitos. Os sábios já muito velhos e próximos da morte, – esses definhavam de desgosto e de vergonha, não sabendo também o que fazer para abrir novos caminhos que no futuro conduzissem à antiga alegria do povo: - uma sociedade de que também fazia parte gente pobre – sem ouro –, vivendo alguns com muitas com dificuldades – mas no fundo mais humana: mais solidária, mais honrada e mais digna. …Até que um dia, sem escolta, de cabeça perdida, saiu o rei do seu palácio, à desfilada em seu fogoso corcel para refugiar-se, só, consigo mesmo, na paz e na solidão dos campos. Já longe do palácio real, absorto em seus pensamentos, soltou as rédeas ao cavalo, deixando-o seguir, sem comando, em liberdade. E sem curar por onde, foi andando até que se achou o rei junto a um regato onde o corcel parara para beber… Espalhado, retouçando a relva, um rebanho pastava, guardado por seu pastor. Acordado de seus sombrios pensamentos dirigiu-se o rei ao pastor sem se dar a conhecer. E com ele começou a falar-lhe das ovelhas, dos pastos e de outras coisas que, julgava ele, poderiam interessar ao pastor – até que pensou: e se eu falasse de questões mais sérias a este homem simples do povo, embora não saiba ler? Que perco eu em ouvi-lo se já tenho ouvido tantos, quase tão analfabetos como ele, embora – aldrabões, vigaristas – digam que são doutores? Porquê, não tentar que me diga, qual a sua opinião? (a ele que nem sequer adivinha quem eu sou.) – e portanto sem receios de me ofender ou obrigação de me lisonjear? E assim pensando, assim falou: olha lá, tu sabes o que é o ouro? Eu sei sim senhor, respondeu o cabreiro, que ao vê-lo assim – sem séquito e sem companhia em tão sertanejas paragens – o tomara por qualquer fidalgote amalucado e pobretana. Então diz-me lá: - se tu tivesses muito ouro e soubesses que alguém tinha dele necessidade e não o tinha, tu eras capaz de lhe dar algum do teu? Porquê? Respondeu o cabreiro. Porque havia eu de dar a desconhecidos, sem razão forte, e sem compensação o que era meu? Que tenho eu a ver com os problemas dos outros?... A dá-lo preferia vende-lo: - que um pouco mais de dinheiro, nunca me faria mal nenhum… Sem respostas que, logicamente aceitáveis, pudesse dar ao pastor, concluiu o rei, que o egoísmo era atributo genético do homem, racionalmente incontornável – Exactamente como acontecia com qualquer outro animal; – pondo cada um antes de tudo, a sua vida, os seus interesses e as suas próprias necessidades. Tudo ainda agravado – por motivo de sentimentos também próprios da natureza humana – como a inveja e a vaidade – eram precisamente os mais pobres que – muitas vezes a crédito imitavam o modo de viver dos mais ricos: - viajando e vivendo acima das suas possibilidades, sem perceber que os ricos podem gastar ou mesmo esbanjar, porque tem ouro suficiente – ou mesmo demasiado, (amontoado muitas vezes e durante gerações, à custa da fome e do sofrimento dos que vivem só do seu trabalho). …E assim, mergulhado em tão tristes pensamentos – foi-se o rei de volta ao seu castelo a meditar, desalentado…
Termino Um grande obrigado a Vocês, e uma palavra de apreço à Dra. Emília Miranda e às distintas professoras da
ESCOLA EB1 DA JUNQUEIRA… Largo Dr. Carlos Pinto Ferreira 4480-286 Junqueira
que vos ajudaram a fazer e a pôr na Netescrita os vossos belíssimos trabalhos . Até breve ou até sempre. O Avô Salvador
De: salvador.prata@netcabo.pt Para: info@eb1-junqueira.rcts.pt Assunto: Netescrita Enviada: ter 12-06-2007 17:40
Ao Conselho Directivo da Escola EB1 da Junqueira
Exmos. Senhores e Senhoras,
Alguns alunos da Escola EB1 da Junqueira publicaram o ano passado, no blog Netescrita da Sra. Dra. Emília Miranda, alguns trabalhos que refiro no post que publiquei ontem, dia 11 do corrente mês, no meu blog, o Buba, cujo texto remeto em anexo. Desejaria levar ao conhecimento dos referidos alunos o texto do post em que lhes remeto uma nova história em cumprimento de uma promessa que há muito lhes tinha feito; mas desconhecendo onde os poderei encontrar, venho pedir a V. Exas. o melhor interesse no sentido de identificar a escola onde este ano estão matriculados os referidos alunos, em ordem a levar ao seu conhecimento o texto da história mencionada e o meu renovado agradecimento, aliás, extensivo aos professores ou professoras que os ajudaram na efectivação dos trabalhos que inicialmente menciono.
Aborto: SIM OU NÃO? Carta aberta a Sua Eminência o Cardeal Patriarca D. José Policarpo.
Eliminei o post. Não me revi nele. E, entendê-lo, julgo que não terá havido ninguém. Se é que alguém conseguiu lê-lo. Repetiu-se o que, há muitos anos, já me tinha acontecido. Foi assim:
Eu tinha prazo para entregar um recurso para o Supremo. Na Relação, apesar de eu ter carradas de razão, julgava eu, os Desembargadores provaram ser os burros do costume quando e na hipótese de nos dizerem que não temos razão – E foi assim que me lixaram e, sem o dizerem, expressamente, acharam que eu não dizia a verdade toda – e era verdade – e só tinha alegado o que me convinha; de tudo o que sobre o assunto, com certeza os mestres na Faculdade tinham tentado ensinar-me e, pelos vistos, – pensariam os Desembargadores –, sem grande resultado. Eu, já batido nos truques e nas manhas do foro, apercebi-me já tarde, que por meu azar e contra o costume, algum dos Desembargadores estava acordado quando leu as minhas alegações do recurso. Posto perante a situação, meti-me em brios e pensei: cabrões! Eu vou mostrar a estes gajos com quem estão metidos. Irei outra vez perder a merda do recurso, mas aquelas bestas de saber, auto alcandorados ao nível dos deuses, e como eles omniscientes, infalíveis, perfeitos, vão ter que sofrer como cães e puxar pelo bestunto se quiserem provar, mais uma vez, que eu não tenho razão. Porque que a não tenho, só eu sei. Mas só eu. O melhor, ao nível dos deuses, infalível, e não eles, incipientes aprendizes de feiticeiro. E, vai daí, gritei, para comigo mesmo, gritando em alta grita: “imos a eles”. Fui procurar a Virgem, ao nicho onde a tenho em minha casa, contei-lhe o que se passava e pedi-lhe que me “cobrisse”, que ia lançar-me na batalha derradeira. E, sem sequer ter ouvido a resposta que certamente me deu, comecei a juntar munições: ideias, argumentos, textos de lei, acórdãos, que os havia – e há sempre para todos os gostos… – e comecei a escrever. Mas as ideias, os argumentos atropelavam-se uns aos outros, como se fosse uma chuva de estrelas ou chuva de lágrimas de foguetes. E eu ia alinhando mais e mais, inúmeros argumentos, intermináveis. E de tal modo que, ao fim de pouco tempo, tinha tanto material, notas, apontamentos, pedaços de textos que a certa altura, fiquei soterrado perante tanto papel com notas, rascunhos, por vezes ilegíveis, sem qualquer hipótese de poderem ser utilizados. Comecei a enervar-me por ver o prazo a correr e começava novamente a escrever outro texto semelhante ao primeiro, ou seja, a repetir e, sem o querer, o que já tinha dito doutra maneira diferente. Depois queria ver se me faltava alguma coisa que tivesse dito noutro texto ou noutro papel qualquer: e começava novamente a ler seis, sete, oito vezes e, entre eles, achava um ou uma parte de um e dois ou três pedaços dos outros que me pareciam melhores, só que lhes faltava ainda pormenores que eu sabia que constavam de outros papeis quaisquer perdidos no meio de outros… largava o primeiro, pegava noutro e depois…pegava noutro… resultado: ia dando em doido: a ver os dias a passar e eu…nada. O meu colega de escritório, admirado, sem perceber a razão da demora, dizia-me:” então, o recurso?” E eu:” está quase!” “Quase? traga isso e nós dois (muitas vezes era assim) fazemos isso numa hora…” “Obrigado, dizia eu. Eu faço aquilo sozinho…” Resultado: tenho a perfeita consciência de que, como advogado, fiz muita coisa razoável e também fiz muita coisa menos boa, mas merda, como aquilo, é que nunca. Excedeu tudo. De tal maneira que eu nunca tive coragem de mostrar ao meu colega aquela porcaria, porque, se o tivesse feito, corria o risco de ele deixar de me falar e fazer constar que não me conhecia ou de dizer, mesmo, de que não tinha a mínima ideia de quem eu fosse. Em suma, o resultado de tudo foi um tremendo e merecido bofetão dos conselheiros e alguns terem passado (até antigos colegas bastante burros) a olhar para mim com um ar apreensivo. E, para mim, pessoalmente, foi uma experiência de tal modo gratificante que, passado algum tempo, deixei a advocacia que, quando a exerci, assumiu, sobretudo, a forma de jogos de inteligência com base no saber, e tendo, como ideal, ajudar a fazer justiça. …E antes de prosseguir, não resisto a dizer que este espírito era o meu e, em geral o dos meus colegas, orgulhosos da toga que vestiam. Antes de a Advocacia se ter tornado actividade de sociedades de advogados, em que dezenas deles, são meros empregados por conta de outrem e cujo objectivo deixou de ser a justiça, sobretudo na defesa dos humildes, dos que nem sequer sabem ler, quanto mais os direitos que a lei lhes confere -e a quem por sua vez, os órgãos do Estado que os deviam garantir são, quantas vezes, parece que, sadicamente, os que mais se encarniçam em denegar justiça, desprezando, ostensivamente e perante a passividade geral, os direitos mais elementares do cidadão e, em especial, o seu direito mais sagrado, como pessoa, a liberdade. Fica o desabafo. E, prosseguindo… Amanhã ou depois, vamos continuar a tentar dizer aquilo que antes não conseguimos. Se Deus nos ajudar. Entretanto deixo-vos a única coisa do post que, julgo, valeu a pena: a Virgem Maria a chorar. Talvez com pena de mim.
Avé Maria Cheia de Graça O Senhor é convosco Bendita sois Vós Entre as mulheres Bendito é o fruto do Vosso ventre Mãe …
Venho falar-vos hoje de dois aniversários: - O dos meus 84 anos; e, - O dos 58 que já leva o meu casamento com a avó Ilda.
A PRENDA DA RITA Antes do mais – e até porque já devia tê-lo feito há muito tempo – quero agradecer à RITA a prenda que me ofereceu no dia do meu aniversário. Contou a Avó Ana que a Rita, preocupada, enquanto ia trabalhando na prenda que me queria dar… perguntava, sem desviar os olhos do que estava a fazer: - Oh avó achas que tenho tempo de acabar? É que, na Escola, o dia em que fiz 84 anos – 24 DE OUTUBRO DE 2006 – tinha sido muito complicado e a Rita não tinha podido trabalhar na prenda que, de surpresa, tinha pensado dar-me, nesse mesmo dia, à hora do jantar. Só por isso: - pelo esforço e, sobretudo pela aflição em que esteve – sem saber, se a podia ou não acabar, – a tempo de ma entregar – a prenda da Rita não tem preço... Obrigado meu amor.
… Sentada, muito direita, de costas no restaurante. Quando cheguei, “senti” que ela me tinha “sentido” chegar. Não se mexeu. Via-se que estava tensa, não se voltou, não levantou os olhos. Aproximava-se o momento de me dar a prenda que tinha a seu lado, em cima da mesa, cuidadosamente guardada numa capa. E em certo momento – depois dos parabéns, das parvoíces de circunstancia e das hipocrisias da praxe – no momento certo, serena e determinada, a Rita levantou-se, agarrou na prenda e sem nunca levantar os olhos, como se estivesse a cumprir um ritual solene, entregou-ma como se a oferta fosse qualquer coisa de si mesmo… Obrigada, Rita, mais uma vez. A recordação da tua imagem ao entregar-me a prenda vai ficar para sempre, indelével, gravada dentro de mim.
…E talvez que, mesmo decorrido que seja muito tempo e (embora já mal te lembrando de mim) se puderes ainda, ler o que agora escrevi – irás ter também saudades (tal como eu já tenho de ti e dos teus irmãos) dos netos que vocês um dia irão ter… – quando um dia um deles te oferecer, solene – como tu fizeste agora (como quem deposita um bouquet de flores na campa dum defunto) – a prenda de aniversário dos teus 84 anos...
O ANIVERSÁRIO DE MEU CASAMENTO COM A AVÓ ILDA
Aos 18 anos, quando a vossa avó era uma (linda) rapariga.
ACONTECEU PORÉM QUE A VIDA POR MOTIVOS QUE, SEM MOTIVO, POR VEZES A VIDA TECE De repente, se lhe transformou num pesadelo… E à rapariga feliz, irradiando vida, querida por toda a gente, pura e sem pecado… aconteceu-lhe o que nem o diabo teria podido imaginar… …Era ainda tempo – tempo maldito – do poder absoluto do pater família… E certo dia, ainda manhã cedo, e mal acordada – foi levada, de surpresa e sem saber que tinha sido condenada à revelia, a cumprir pena de degredo e residência fixa, numa terra distante. Tendo-lhe assim sido brutalmente interrompido o curso de Letras que tinha começado, com anotação de qualidade feita pessoalmente pelo Prof. Delfim Santos.
CERCA DE DOIS ANOS DEPOIS, NO DIA 3 DE NOVEMBRO DE 1948 FEZ 21 ANOS
E com a maioridade, chegou também, finalmente a LIBERDADE e o fim da pena de desterro e cativeiro: correu para junto do noivo que – embora tanto tempo, sem notícias e sem ter podido vê-la – continuava esperando por ela.
NO DIA 23 DE DEZEMBRO DE 1948 CASARAM
Porém, EM 13 DE JANEIRO DE 1949
Já a má sorte condenava os dois a novo desterro e residência fixa, por mais cinco anos noutro lugar não muito distante do lugar, do qual – 8 semanas antes, a MAIORIDADE a tinha libertado. E para sobreviver, para ali ficaram. Enterrados vivos. Longe de tudo e de todos. Só os dois. Sem mais ninguém. Como se lhes tivessem rogado uma PRAGA, ou fosse uma MALDIÇÃO.
Não quis Deus que alguma vez tivessem sido reveladas as razões (ou alguma vez tivessem sido perguntadas ao carrasco executor) da sentença sem crime que Deus permitiu. Porque aconteceu o que não era possível que pudesse acontecer? Terá sido Praga ou foi Maldição? Ou foi, simplesmente,
A FORÇA DO DESTINO?
Hoje, perto do fim continuo a perguntar-te – a Ti, meu Deus: - Porquê? Terá sido para por à prova como forte e puro era o nosso amor? E se assim foi, espero que lhe dês, a Ela (à mulher que por mim deixou tudo e que, durante 58 anos ficou junto de mim), a recompensa justa pela Vida que eu, sem culpa, não lhe deixei viver... E peço-te também, mais uma vez – como todos os dias peço à Virgem Maria, minha e Tua Mãe – Que, quando chegar a hora de a levares, a guardes bem junto de Ti. Que ela bem o mereceu. Tu sabes…
MÃE E AVÓ DE ELEIÇÃO
NO DIA 3 DE NOVEMBRO DE 2006 FEZ 79 ANOS
NÃO MUDOU
ILDA Por tudo o que fizeste pelas nossas filhas e netos: - de renúncia e dádiva de ti mesma, e por mim que sempre te amei, mas que não te mereci. Partilho contigo, em acto de contrição, – e porque és tu e não eu que a merece – como prenda de aniversário do nosso casamento, a prenda de aniversário que Rita me deu no dia em que fiz 84 anos.
É o que o Buba vem desejar a todos os amigos e simpatizantes (…mais ou menos 10 segundo creio) que desde há quatro anos, regularmente ou de vez em quando, o vêm visitar: o Adriano e o Nuno do “Macacos Deuses”; a Alessandra Giovana Borges; a Almacave; a Ana Cardoso; a Cláudia Dias; o Deckard do “Relógio Parado”; o Eduardo e a Thita do “Bloguices”; o Gongas do Blog “Ex-Caloiros”; a Inês do “Moleskine”; a Inês Rapazote do “Um Bigo Meu”; a Joana Gorjão Henriques; o José Costa do “A Triste Sina”; a Júlia Matos Silva; a M. Conceição; a Madalena do “Chora Que Logo Bebes”; a Sandra Regina Prata. Peço desculpa a algum de vocês que, por falha minha, não mencione. Um grande abraço a todos. Aproveito ainda este post para agradecer à Madalena Santos o e-mail que me mandou no passado dia 15 de Dezembro. …Sabes Madalena: - aconteceu que ao ler o teu e-mail fui ver o Chora Que Logo Bebes e verifiquei que no dia 5 do corrente o Buba tinha sido nomeado para a atribuição do Prémio da Academia dos melhores blogs do ano. Fiquei, como podes calcular, surpreendido. Até porque o único prémio que me lembro de ter ganho por ter tido a nota mais alta numa disciplina, andava eu ainda no 3º ano do liceu: foi há mais de 70 anos… Depois disso, as notas mais elevadas que tive (de ouvir) foram as emitidas através das cordas vocais da Dra. Magalhães Colaço, ao ouvir enlouquecida as barbaridades das respostas que eu dava no exame de Internacional Privado. Em compensação, na pauta, da partitura do exame, escreveu uma única nota final (aqui a musica era outra…) de tom baixo, grave, muito grave mesmo… Apesar do que, ficámos amigos para sempre. Mais tarde, procurei-a para me “ver” um articulado que fiz num caso muito difícil. Telefonei-lhe e combinámos que me receberia na Faculdade. Tive o azar de chegar atrasado 4 ou 5 minutos. Foi lindo: - nunca tinha ouvido, nem espero ouvir, em toda a minha vida insultos, impropérios, gritos tão altos. Nem à Yma Sumac… Depois calou-se e ouviu concentrada a “história” do caso. E quando acabei perguntou-me: - O que é que você escreveu? Dei-lhe a minuta. E à medida que ia avançando na leitura, via nascer-lhe nos olhos um sorriso discreto. Levantou-se e sem me devolver os papéis, disse: - Se precisar de ajuda telefone. Mas se voltar a chegar tarde, nem o recebo. Perguntei-lhe quanto lhe devia. Nem me respondeu. Pronto Madalena. E a ti, depois deste desvio (talvez um tanto a despropósito, mas que me permitiu deixar também uma nota de amizade e respeito por uma mulher de eleição), mais uma vez obrigado. Mas deixa-me ainda, por último, que te confesse que não sei o que fazer de tão distinta nomeação para o Prémio da Academia. Oxalá não perca a cabeça, como aconteceu ao Saramago quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura que lhe foi concedido pela Academia Sueca. Lembras-te? Quando foi abordado pela Imprensa e começou aos coices a dizer que não respondia a nada do que lhe perguntavam e quanto ao milhão de Euros que tinha ganho, que não dava um tostão a ninguém: - o dinheiro era dele e queria que os outros se lixassem. É este senhor (a quem não atribuo qualificação, por ser inqualificável…) e de cuja vasta obra literária só li uma ou duas dúzias de linhas do “Levantado do chão”, que considero o melhor escritor português. De sempre. Hoje fico por aqui. Um grande beijo.
¶ 12/22/2006 05:01:00 PM
D. Duarte diz que Cavaco tem agido como “um presidente-rei”. Cavaco diz que o Sócrates tem agido como um príncipe perfeito.
¶ 12/04/2006 04:04:00 PM
30 Novembro 2006
MEUS QUERIDOS NETOS,
Rita Dinis
Pedro
Hoje li no DN (…é todos os dias assim) a notícia de primeira página e sabem o que, sem pensar, me ocorreu? Vejam:
A seguir vi a primeira página do Público e sabem qual foi o comentário que, para mim mesmo, me saiu? Vejam:
QUASE?
E por ora tenho que ficar por aqui. Mas prometo que na segunda-feira venho cá continuar a falar com vocês. Até segunda, o Avô Salvador.
¶ 11/30/2006 06:34:00 PM
24 Novembro 2006
Foto de Sandra e seu miúdo Caio, que está a fazer gracinhas com os olhos esbugalhados.
De: Sandra Regina Prata Para: Salvador Prata Enviada: Terça-feira 24/10/2006 – 20h54 Prezado Salvador, daqui do Brasil te envio meu abraço carinhoso pelo dia do teu aniversário, e desejo-te muita saúde, com inúmeros momentos de felicidade e alegria. Sandra Prata Em qualquer direção que percorras a alma, jamais tropeçarás em seus limites.
SANDRA. Desculpa só agora vir agradecer-te o e-mail que me mandaste quando fiz 84 anos. Não sei o que dizer mais, quanto ao que sinto, que tu não saibas já; e haja necessidade de te dizer outra coisa que não seja: Obrigado. Aproveito o ensejo para te contar o que, há quatro ou cinco dias, aconteceu e me intrigou: - é que, no Site Meter do Buba, apareceu, sem que nada o justificasse, um número de visitantes inusitado: mais de 1.200 num só dia, quando a média diária do meu blog, como podes ver pelo gráfico, é bastante mais modesta e praticamente sem significado. E por isso mesmo e pela surpresa, perguntei ao meu neto, que tem 33 anos e está perfeitamente actualizado (e também tem um blog individual na Net, “A Praia”, e colabora no site “5 Dias”), se percebia o que estaria a acontecer. Esclareceu-me e fiquei então a saber que o número excepcional de visitantes do “meu” Buba nada tinha afinal a ver com ele. Indirectamente porém, o incidente teve a virtude de recordar-me a falta em que estava para contigo: a de te agradecer o e-mail que me tinhas mandado há um mês por motivo do meu aniversário… E porque há muito que não falamos, deixa-me que aproveite a oportunidade para te contar um pouco do que sei, ou julgo saber e desde quando, do Brasil: não propriamente das suas belezas naturais únicas no mundo, mas das pessoas, da sua maneira de ser e da maneira diferente de viver a vida. E vou contar-te como tudo começou: Andava eu em Letras e estava na Rás-Teparta – uma República de estudantes das mais antigas de Coimbra – era o ano de 1943 – e a certa altura, apareceu lá, um rapaz brasileiro, também estudante, que tinha vindo de visita a Portugal para conhecer a terra onde o avô tinha nascido. Naquela altura passavam pela República, poetas, artistas, actores de teatro e do cinema, políticos, pensadores, vindos principalmente da Europa e dos Estados Unidos, que queriam conhecer Coimbra e a sua velha Universidade… O moço brasileiro era porreiro: falámos, andámos juntos, bebemos uns copos de Licor Beirão… Alinhou bem e, como era fatal, tornámo-nos amigos. E, como também não podia deixar de ser, trocámos impressões sobre a maneira como foram iniciadas e se mantiveram, tão fortes e durante tanto tempo, as relações entre portugueses e brasileiros… E gostaria de dizer-te da ideia, que desde essa altura me ficou, de que o Brasil tinha sido descoberto por acaso por um sujeito chamado Cabral que, certamente não tinha mais nada que fazer e andava a navegar… Ou talvez porque isto aqui, em Portugal, era já, nesse tempo, o que sempre foi (e continua a ser: - uma autêntica desgraça); e o Cabral, chateado – e certamente farto desta choldra – andava a navegar a ver se conseguia encontrar um sítio decente para viver… E teve sorte. …………………………………….......... …Entretanto, o meu amigo brasileiro tinha ido à vida dele: a conhecer a terra onde o avô tinha nascido. Mas quando voltou, passados dois ou três dias, vinha triste, chateado, desiludido... Dentro de dois ou três dias – não prometo – quando tiver um pouco mais de tempo, virei continuar a falar contigo para te dizer o que aconteceu depois entre nós, os da República, e o nosso novo amigo brasileiro que tinha descoberto Portugal e os portugueses. Um grande abraço para ti e um beijinho para o Caio. Do teu amigo e teu “avô”, por afinidade do apelido que nos veio ao nome, sabe-se lá de onde e desde quando… Buba.
¶ 11/24/2006 06:45:00 PM
25 Setembro 2006
Os Pequenotes da Mila
No mês de Julho passado, o Netescrita publicou quatro finais da história que quando eu era criança, a minha mãe me contava, à noite, para eu adormecer. Os meus parabéns aos seus autores, o Pedro Neves, o Nuno, o Lino e a Maria André, alunos do passado 4º ano da Escola E.B.1 da Junqueira; e parabéns também aos seus colegas que tão bem ilustraram os textos. Por estes dias vou escrever novamente aos meus amigos de Vila do Conde e mandar-lhes outra história que desta vez titulei, “Era uma vez um rei”. Entretanto deixo, a todos os pequenotes, à Mila e ao Netescrita, o meu sincero obrigado. Avô Salvador.
¶ 9/25/2006 11:04:00 PM
21 Agosto 2006
FRANÇA – Não sei se te recordas duma aula em que o Taveira, enquanto ia avançando, por entre as nossas carteiras, nos pôs uma questão: a de saber quem tinha escrito um texto, que ele, enquanto andava, ia debitando de memória, e que terminava com uma referência ao período em que Portugal esteve ocupado pela Espanha: - uma piroseira que rezava assim: - …"os espanhóis que nos houveram cativos por sessenta anos"…
…Andávamos no Gil e, no 5º ano, tu já escrevias no DIABO e de Literatura – pelo menos da francesa – já tinhas lido e sabias mais que o nosso excelente professor de Português – Latim.
Declamado o "hino" laudatório á indómita raça lusitana, o Taveira perguntou: Quem foi o grande escritor português que escreveu este texto? Moita. Ninguém sabia. Olhámos todos para ti. Mas tu…nada. Sorrias… Os "melhores" aventuraram: - Oliveira Martins! … Herculano! …E lá detrás, o Vasco, sempre provocador, atirou: -Bocage! "Sua bésta!" casquinou o Taveira, num dos seus dizeres de escárnio e de chacota em que também era mestre…E depois, vendo que ninguém acertava – e tu não abrias bico – revelou finalmente – entre o sério e o sorridente – o nome do autor do texto: Taveira Sarmento!
Alguns riram da graça. Outros riram do Taveira e outros riram do texto.
Só tu, França, esfíngico, continuaste a sorrir…
…………………………………………….
Aos da 5ª A, do Gil, que por mais de oitenta anos a vida houve e ainda mantém cativos – eu – passados que foram setenta – pergunto, tal como fez o Taveira: Quem é que escreveu o texto que vou transcrever de seguida?
França: Tu, que em Literatura, continuas a ser – dos que restam – o melhor de todos nós, diz-nos: - Quem foi que escreveu o texto? Terá também sido o Taveira… ou terá sido algum fantasma dum tempo que foi o nosso?
Não sorrias… E não me chames, entre – dentes, o que o Taveira chamou ao Vasco… Um abraço.
TEXTO:
Uhland – Julgo poder concluir que para ti é dominante como valor mais alto o da convenção social. É assim?
Bissadoa – Não, a tua conclusão é errada: Pelo menos no que respeita ao aspecto que tens em mente. Por diversas vezes te afirmei já isto mesmo.
Uhland – Continuo a não compreender.
Bissadoa – Não compreendes ou não queres compreender?
Uhland – Não, sinceramente não compreendo; e o defeito será meu, que da tua parte, se de algum defeito enfermam as tuas palavras é sempre do excesso e não da parcimónia delas.
Bissadoa – A tua ironia é sempre duma maravilhosa subtileza e revela bem como és inteligente...
Ulhand – Perdoa-me.
Bissadoa – Perdoa-me tu, meu querido Uhland.
Uhland – Queres que continue?
Bissadoa – Como não, querido Uhland Sabes como gosto de te ouvir...
Uhland – Sei.
Bissadoa – Porque és sempre tão presumido, querido Uhland Dá-ta prazer a presunção?
Uhland – Bem sabes que não...
Bissadoa – (Guarda silencio e olha interrogativamente Uhland)
Uhland – É talvez porque sinto que é minha parte da tua alma...Por isso falo assim contigo. Para ti verdade é presunção!
Bissadoa – Porque usas sempre uma tortuosa maneira de dizer e de fazer as coisas, meu querido Uhland Dir-se-ia que te comprazes no complexo, no labiríntico e na análise do que não é, por natureza, analisável.
Uhland – Mas eu penso que tudo é analisável. Tudo o que existe. Só porque existe é real e terá de ter uma razão de ser que devemos, quando não conhecemos, tentar conhecer.
Bissadoa – Torturas-te inutilmente, meu querido Uhland; As razões da alma não as entende a razão. Não foi Pascal que o disse?
Uhland – Isso não é suficiente para que aceite a irracionalidade e a ininteligibilidade dos sentimentos. Haverá sempre uma causa: o instinto é uma hipótese...
Bissadoa – Não, meu querido Uhland. O que há são estados de alma. A alma de cada ser humano é como que um náufrago debatendo-se perdido no mar proceloso da insatisfação em busca de outras almas.
Uhland – Concordo contigo, querida Bissadoa. É isso mesmo que eu sinto também na minha própria alma. Entretanto, repara, tu emitiste um juízo sobre a alma e os estados da alma.
Bissadoa – Não meu querido Uhland, não emiti qualquer juízo nem é isso que importa. Importa, sim, sentir e o que se sente. O porquê se existe, estará na própria capacidade de sentir de determinada maneira e não de outra.
Uhland – Sim, e como explicas o não sentir?
Bissadoa – É importante para ti explicar também o que não existe?
Uhland – É.
Bissadoa – Não te basta a verdade e saber que existe Não é a verdade que procuras em mim e que eu procuro dar-te?
Uhland – Não sei. Para mim Não saber é a minha verdade. É registar o saber do que tu e todos sabem e eu não sei.
Bissadoa – Porque não encaras a realidade?
Uhland – Mas tu não vês, querida Bissadoa, que eu não vejo o que todos vêm Que meus olhos não vêm nas trevas do mundo. Que só vejo o que ninguém vê na claridade do que aqui não pertence e que está além onde pertenço e desejo ir.
Bissadoa – Meu pobre querido, como tu és infeliz. Porque não vens sentir a verdade que eu tenho em mim e que eu quero dar-te; parte de mim e de ti que eu tenho em mim, Uhland? Deixa Uhland que a tua alma se funda de vez na minha.
Uhland – Não, não me ensines a verdade. Deixa-me viver na ignorância, não me macules com o saber que tu sabes e eu não sei. Não violes a minha ingenuidade, que é quanto me resta da minha verdade. Deixa-me ser eu.
Bissadoa – Que posso eu fazer por ti, querido Uhland? Que posso eu dizer-te? Quisera estar contigo. Fitando o teto branco imaculado e puro como tu. E deixar-me esquecida unida a ti pela teia dos nossos sentimentos. Das nossas alegrias e dos ressentimentos, qual cadeia de aço esmagando nossas almas a sangrar de amor, qual pira onde ardesse o fogo da paixão… Eu amo-te, Uhland.
Uhland – Como me faz bem e me dói ouvir-te, querida Bissadoa.
Bissadoa – O que é para ti o amor, meu querido Uhland?
Uhland – Não sei dizer-te: É um misto de inocência, de candura, de perdão, um misto disto tudo e de nada disto. Qualquer coisa que é, que não se sabe o quê…
SE ALGUÉM CHAMA POR NÓS NÃO RESPONDEMOS, SE ALGUÉM NOS PEDE AMOR NÃO ESTREMECEMOS, COMO FRUTOS DE SOMBRAS SEM SABOR, VAMOS CAINDO NO CHÃO, APODRECIDOS. EUGÉNIO DE ANDRADE
1.-Tia Amélia A minha tia Amélia que era descendente, em linha recta, da Padeira de Aljubarrota, contava-me uma vez - na voz altisonante que usava nas Feiras e os olhos a brilhar (lindos olhos negros tinha a minha tia Amélia): “… era como se fosse noite e de repente tivesse chegado a luz do dia” dizia ela – referindo-se a um advogado muito célebre de Lisboa - marreco - que era mesmo bom no “Correccional” e nesse tempo – anos 50 – muito popular entre os inquilinos… Minha tia tinha-se metido numa alhada com oficiais do mesmo oficio – feirantes – e contratou o marreco para a defender. Aquilo parece que foi “o bom e o bonito”: - na sala de audiências, no dia do julgamento, ao que me disseram, foi tal a berratina da minha tia Amélia, e dos membros de várias tribos de ciganos envolvidos na lide, que o trânsito parou na Almirante Reis. Ficou célebre… Depois disso a minha tia continuou, como sempre, a percorrer as feiras – não havia cigano que lhe pusesse o pé à frente… – corria o país embora tivesse tido sempre “banca” permanente na Feira da Ladra, a vender roupas, incluindo fardas e condecorações de sargentos e oficiais falecidos (que as viúvas pobres lhe vendiam) para além de fardas de “praças”, roubadas, penso eu: - (é que, muitos dos “magalas”quando passavam à “peluda” arranjavam maneira de não entregar os fardamentos - ou eram autorizados a ficar com eles) – não sei… O que sei é que a minha tia Amélia era uma espécie de sucursal civil do “Casão”, (Oficinas Gerais de Fardamentos e Calçado.) que ficava a cerca de 100 metros da “tenda” da minha Tia Amélia que “fardava” – de alto a baixo: - bivaque, camisa, botas, calças, dólmen, eu sei lá… – por macuta e meia os rapazes que iam para a tropa como milicianos e depois de saírem iam trabalhar nas obras. …Sempre que via a minha tia Amélia, lembrava-me a letra dum fado de Coimbra: “…as tuas olheiras negras/ dão mais brilho ao teu olhar, / se não fora a noite escura / o que seria o luar…”
Não tinha nada: - deu sempre tudo o que tinha ao único filho que teve e que morreu, muito novo, espatifado na estrada. Para ela a vida deixou de fazer sentido… Envelheceu. Puseram-na num Lar miserável, em frente de uma janela, na corrente de ar…a ela – que foi a rainha das feiras e a rival respeitada dos ciganos – jazia agora, sozinha, num catre, como qualquer desgraçado, sem eira nem beira, quando chega ao fim da linha... Não fiz nada por ela. Ninguém fez. Que posso eu fazer agora? Chorar? Rezar? Vale a pena? Querida Tia Amélia… Tenho tantas saudades tuas.
2.-O Meu Tio Manuel Foi o melhor amigo que tive na vida. Desde miúdo. Desde sempre. O meu Tio vivia, nessa altura, em casa da minha avó, onde eu nasci. Ia lá dormir com ele muitas vezes, enquanto foi solteiro. Depois casou e veio viver para a Azinhaga para uma casa que o meu pai lhes alugou. Aos Domingos, à hora de almoço, contava-me as aventuras do tempo em que era solteiro: - os despiques, as cenas de porrada em que ele intervinha por causa dos ciúmes entre os rapazes na disputa dos favores das raparigas nos bailaricos dos fins-de-semana. Descrevia-me como se estivesse a contar um filme todas as cenas das zaragatas em que se envolvia e das quais saía sempre vencedor… e descrevia-me, também, em pormenor, as grandes jogadas dos desafios em que o Benfica, tinha cilindrado sempre o Sporting uns pernetas, uns aleijados que uma vez ou outra tinham tido sorte mas que não jogavam nada. Mais tarde – anos 40 – já eu estava na tropa íamos ao box no Parque Mayer: era o Belarmino… O Belarmino era engraxador e, volta e meia, ia “combater”; - “levar na tromba”, como ele dizia. O meu tio adorava… Entretanto saí de Lisboa e o tempo, demasiado tempo – e a vida – foram passando; e a certa altura, quando regressei, já não tive coragem de ir procurar o meu tio: - tive vergonha; - e, ao mesmo tempo, receio de que, o seu ressentimento, justificado, pudesse estragar a nossa amizade, as nossas recordações… E não fui. Não fui capaz… O meu Tio não tinha filhos, o único “filho” que teve na vida fui eu: - o sobrinho, o seu ídolo. Ele, que era pobre, foi a meu favor que fez, ou quis fazer, testamento. Era de mim que ele esperava tudo para concretizar, na vida, aquilo que ele nunca tinha podido ser... …Tenho a certeza de que até morrer, o meu Tio esperou sempre que eu, num dia qualquer, aparecesse. Sem ser esperado. Não aconteceu. Envenenou-se… tinha 80 anos. …Ia jurar que, enquanto bebia o veneno, pensou em mim… Não sei se me perdoou… mas sei – e Deus também sabe – que não tenho perdão, porque, ao trair a nossa amizade, fui eu que o matei. Sem motivo: - a ele, o meu tio Manuel, o maior amigo que tive na vida.
VEJAM SÓ
Se as crianças são ou não a melhor coisa do mundo … Transcrevo a seguir o teor da carta que os meus amigos do 4º ano da Escola E.B.1 da Junqueira, Vila do Conde me mandaram em resposta à que lhes enviei com a História do Carvoeirito. Com um abraço apertado, o meu obrigado à Mila do blogue Netscrita.
Quarta-feira, Junho 07, 2006 Para o avô Salvador
Os pequenotes receberam uma lembrança do avô Salvador e quiseram agradecer-lhe.
Querido avô Salvador: Ficámos muito felizes por saber que o avô Salvador não se esqueceu de nós. Queremos agradecer a sua história, apesar de não estar acabada... mas nós continuámo-la porque achámos graça, divertimo-nos e aprendemos. Aprendemos muito com a sua história, como por exemplo, o que é um almocreve, o que é ser "filho de rei por nascimento", o que era o serão da corte, a capa de arminho, o ceptro, e que há histórias com outra história dentro, como esta do Carvoeirito. Continuámos esta linda história para lhe agradecer e também para lhe dar a conhecer como termina. A Maria André, o Lino, o Nuno e o Pedro foram os nossos colegas que terminaram a história. Os outros não o fizeram mas prometem ilustrar os quatro finais diferentes que foram escritos e que serão aqui publicados.
(Catarina, Cláudia, Fátima, Lino, Maria André, Marta, Nuno, Pedro, Roberto, Rui e Tânia, 4.º ano, Escola EB 1 da Junqueira) publicado por Emilia às 1:00 AM
¶ 6/13/2006 09:27:00 PM
30 Maio 2006
Aos meus amigos Lino, Fátima, Marta, Maria André, Nuno, Pedro, Rui, Tânia, Margarida e Roberto do 4.º ano da Escola E.B. 1 da Junqueira, Vila do Conde.
Peço-lhes desculpa pelo enorme atraso com que venho agradecer-lhes as palavras amigas que me dirigiram no passado mês de Janeiro do ano corrente de 2006. O atraso deve-se sobretudo a não saber como agradecer-lhes. Pensei, pensei e vejam o que saiu: asneira; de certeza que se vão rir: lembrei-me de vos contar uma história que a minha mãe me contava quando era ainda muito miúdo: – tinha talvez os meus 5 ou 6 anos – e gostava muito que a minha mãe me contasse a história. Ah Sim!... ainda não vos disse um pormenor: é que a história que a minha mãe me contava era sempre a mesma… Não sei porquê: não sei se era porque a minha mãe não sabia outra, ou porque era sempre aquela que eu lhe pedia para me contar… … E agora, como forma de agradecer as vossas palavras amigas, resolvi contar-vos a história que a minha mãe me contava quando eu era ainda muito pequeno. Eu sei que vocês já não são criancinhas a quem se contem historias... Mas, “prontos”: estas recordações de infância são o que de melhor eu guardo dentro de mim … e, por isso mesmo, as quis repartir com vocês… E, quem sabe se a Tânia, o Lino, o Roberto – ou algum dos outros meus amigos do 4º ano da Escola EB da junqueira – não terão também, para contar, histórias que as mães deles lhes tenham contado, à noite, antes de adormecerem, quando tinham 5 ou 6 anos… Quem sabe?
Um beijinho a todos do avô Salvador.
E agora aí vai a história:
O Carvoeirito Aconchegado, mordendo numa ponta do lençol, ouvia… Sentada num banco baixo, a malha nas mãos, minha mãe contava: “…depois, o Carvoeirito…”. Era sempre a mesma história que minha mãe me contava depois da luta introdutória: “Vai para a cama. Sabes que horas são?”. Não sabia. Nem queria saber… “Só se a mãe me vier contar a história do Carvoeirito… e no final, lá vinha o banco e a malha. “Onde é que eu ia ontem?” “Não interessa, conte do princípio…” E ela contava: como a seguir eu vou também contar: “Filho de rei por nascimento, sem o saber, ambições e maldades dos homens fizeram dele almocreve. A correr o mundo… Até que um dia chegou a uma cidade onde havia um grande palácio, muito bonito. A ele foi o almocreve a oferecer carvão; e em troca dele, uma malga de caldo; e p’rá noite uma cama, numas palhas em sítio onde ele e o burro, pudessem ficar. Ao vê-lo o rei que ia a passar, teve um pressentimento: ele, rei, que há largos anos vivia fechado em sua dor, pelo desaparecimento de seu único filho. E logo ali lhe mandou dar farta refeição e um bom aposento. E à noite, ordenou, que viessem para serão, os fidalgos da corte; e mandou ainda, que a ele viesse, também, o Carvoeirito. E assim, cumprindo a ordem do rei, entre expectantes e surpresos, se foram os fidalgos assentando à volta da lareira. E assim acomodados, se mantiveram todos, ouvindo lá fora o inverno da noite, enquanto o rei não chegava. Tímido e receoso, a um canto, encolhido, se postara o pequeno almocreve: excogitando os porquês da real vontade e – habituado que estava aos pontapés dos homens e ao ladrar dos cães – de qual o “crime” que, sem querer, decerto praticara e pelo qual, decerto também, ia ser castigado. E eis que chega, o rei; E logo, todos ao vê-lo, se atiraram de joelhos ao chão: que era esse o costume do reino. O rei trazia na cabeça uma coroa de rubis e brilhantes, capa de arminho aos ombros e o ceptro na mão. E com ele também, forte escolta de tropas; fortemente armadas. O que tudo deixou – aos fidalgos – a uns embasbacados e a outros vagamente receosos. E logo ali ordenou o rei ao Carvoeirito que a todos contasse, porque ele rei a queria ouvir, a história da sua vida. E assim se fez: e o Carvoeirito cumprindo a ordem recebida do rei, começou assim: “Era uma vez um menino…”. “E depois…, prosseguiu: quando era muito pequenino, o menino foi levado por uns homens muito maus que o abandonaram lá na serra, noite escura, cheia de lobos muitos maus e só embrulhado numa mantinha. E nem lhe deixaram comer nem nada que era para ele morrer de fome”. Pungente era a história – a que todos ouviram: a história da sua vida, à ordem do rei contada. E que o contador de tal conto – todos adivinharam – só podia ser o filho que, “perdido” pelo rei, nunca mais fora encontrado: - o filho desaparecido, por ambição e maldade de não se sabia quem. E daí que, enquanto já exultavam alguns, outros inquietos já tremiam pelo medo que lhes causava tal conto que o receoso contador continuava a contar. “E depois… apareceram uns pobrezinhos, que andavam por ali, e que recolheram o menino porque tiveram muita pena dele. E quando chegaram a casa, deram-lhe leite duma cabrinha que eles tinham e fizeram-lhe muitas festas e o menino ficou muito contente. E então viram que o menino tinha um sinal num bracinho e ao lavar o menino viram que o sinal era de nascença e não saía e quando viram melhor, viram que era uma marca muito linda, com uma coroa e muitas espadas à volta.” Ia assim o contador contando o conto quando alguns fidalgos já muito nervosos pediram licença ao rei para se irem deitar dizendo que se estava a fazer muito tarde e estavam a ficar com frio… Mas o rei que estava cada vez mais nervoso ao ouvir a tão pungente odisseia do menino, “alevantou-se” furioso, lá donde estava sentado e desembainhando a espada, comandou: “Conta, conta, Carvoeirito, que daqui ninguém se levanta.”. …Depois voltou a sentar-se soltando fortes gemidos de cortar o coração. Entretanto, o comandante das tropas, vendo que alguns fidalgos se estavam a preparar para fugir, logo deu ordem às tropas para avançarem um passo, para lhes apertar o cerco. E vendo o rei por seu lado, que o Carvoeirito também estava a ficar amedrontado logo lhe disse: “Não tenhas medo. Conta! conta!...” E assim, o contador continuou a contar: “E depois…”. Eu – entretanto e enquanto ia ouvindo a minha mãe contar (…o sono a esborratar-me já o entendimento), ia fechando os olhos. Era a altura em que a minha mãe dizia: “agora espera aí um bocadinho, que eu já venho.”. Sobressaltava-me sempre: “Onde é que vai?”… Verdade que não podia ir longe: a casa era pequena e para ir à rua, não era propicia a hora. “Vou ali fazer uma coisa e já venho.”. E lá ia…. E lá ficava eu, até que daí a pouco adormecia, a sonhar com os meninos marcados nos bracinhos, logo quando nasciam, com sinais que os tornavam diferentes dos outros meninos que, quando nascem, não trazem tal sinalização. Minha mãe ia-se embora e não voltava. Por isso nunca me contou o final da história nem qual o castigo dos homens “maus” que de noite tinham levado o menino para a serra medonha. Uma vez, na minha inocência e enquanto ouvia contar a história, perguntei: “…e o burro mãe?”. Queria eu saber se o burro do Carvoeirito também era filho do rei. Que não, disse minha mãe. Que era filho de outro burro… que os reis não tinham filhos burros. Era de lei… …Uma noite acordei ou porque mais agitado ou mal adormecido: surpreendeu-me o silêncio e a luz que se coava da sala contígua. Tonto pelo sono, levantei-me da cama e pé ante pé, espreitei e vi minha mãe, imóvel, sossegada, a malha no regaço. Parecia adormecida. Pareceu-me que chorava… chorava talvez por me ter deixado vir ao mundo, sabendo que eu não tinha sinal.
Minha mãe nunca mais voltou à noite para me contar o fim da história, antes de eu adormecer… mas sei, tenho a certeza, que uma noite destas, minha mãe virá de novo sentar-se num banco baixo, à minha cabeceira, com a malha nas mãos e, depois de eu adormecer, irá contar-me, finalmente, o final da história que, quando eu era criança, me contava para eu adormecer.
¶ 5/30/2006 10:08:00 PM
29 Maio 2006
1- A HONRA Os Samurais da Fossa
A “dejua” do ”pessoal” da Quinta eram as sopas de cavalo cansado: uma malga de vinho, a ” martelo,”do carrascão da “Ti Macaca”, uma “pomada” que fazia uma espuma grossa, rosada, quando saía do pipo… (metabisulfito puro) e pão torrado, cortado aos quadradinhos, ensopados no “resmungo”. Ficavam de molho. Com muito açúcar. Toda a noite. Comia-se de manhã. Dava força… Em alternativa e à compita era a Ti Carlota. Vinha de manhã muito cedo: - antes de ser dia – Fava-rica! gritava ela quando entrava na Azinhaga. Quase a escaldar, era o pequeno-almoço de outra parte daquela gente que saía de casa, ainda noite, antes mesmo do findar da madrugada. Para trabalhar no duro na Ribeira, na Estiva, no Arsenal da Marinha, na Parry & Son… alguns traziam marmitas para levar e comer mais tarde. E eram sobretudo os putos que deliravam com aquela espécie de sopa semelhante à lavagem que na Quinta davam aos porcos, verde escura, com bocados de favas cozidas a boiar. Cheirava bem, vinha quente e era barata.
Naquele começo de dia a Ti Carlota não veio… O “pessoal” da Azinhaga, habitué da fava-rica, bem esperou por ela, como de costume. Soube-se depois, – quando os bombeiros arrombaram a porta do “Lugar” – que a Ti Carlota se tinha enforcado, pendurada numa corda, presa num barrote do telhado. Eu fui lá ver: - a Ti Carlota tinha a língua de fora: o sorriso transformado num esgar de sofrimento e amargura, os olhos a sair da cara. “Foi por causa dos calotes” diziam alguns gajos que também foram lá vê-la. Vítima do pecado de ser honrada, era a justificação do acto de desespero que levou a Ti Carlota ao suicídio: Vendia fiado e muitos dos fregueses – muito pobres – não tinham podido pagar-lhe. Tinha falido… a honra diziam os gajos… mas que é isso da honra? Perguntei. Ninguém sabia… Toda a gente gritava, sobretudo o mulherio… desesperado comecei a gritar também: Ti Carlota não morra! Caralhos a fodam! Desça daí, porra! … de nada valeu a gritaria. Dois gajos subiram para cima do balcão e cortaram a corda; mas não foram a tempo… Depois vieram outros gajos da polícia que prenderam os gajos que cortaram a corda. Não podiam… Era de lei. De Lei… Filhos duma grande puta! E a honra? Também não sabiam o que era… Cabrões!
Hara – kiri O branco imaculado das vestes, vim a saber mais tarde, era o símbolo cromático da honra dos Samurais. Que, quando manchada, impunha que fosse lavada com sangue de acordo com a tradição: enterravam a lâmina no ventre e cortavam. De baixo para cima. Era uma agonia prolongada e dolorosa. E se a morte demorava tempo demasiado um amigo decepa-lhes a cabeça. …Sem honra os Samurais não aceitavam continuar a viver. Os Samurais da fossa também não: Havia porém uma diferença: - é que a honra Dos Samurais da fossa nada tinha a ver com a derrota, em combate, frente ao inimigo que era, em regra, para os Samurais, a causa da desonra… Como também nada tinha a ver com o desagravo do homem que, traído pela mulher, lava a honra com sangue, a golpes de navalha. Não; a honra dos Samurais da fossa era o respeito por si mesmos, pelo seu bom nome, pela palavra dada… Subir para cima de um banco, passar uma corda à volta do pescoço, saltar no vazio e ficar depois a oscilar, lentamente, já sem vida, na ponta da corda, presa num barrote do telhado.
2- A DIGNIDADE: DO CÃO Sete furos abaixo: Eu e o criado
Levantei-me com dificuldade. Tinha muitas dores. É da idade. Vesti o sobretudo, pus o cachecol e para me tapar as orelhas e proteger do frio pus o barrete: - um barrete igual aos que antigamente usavam os estudantes de Coimbra e usam ainda os moços de forcado. Estava no restaurante. Vim andando e à porta, com um ar entre o divertido e o trocista, estava um criado à minha espera para o agradecimento, sabujo, do costume. Dei uns passos rápidos e pus as mãos atrás das costas empinando o peito para a frente, como se fosse um forcado e estivesse a citar um touro… O criado achou imensa graça. Eu pensei: cretino. E saí. Estava um frio lixado… Vim para casa. Deitei-me em cima da cama, a descansar. O cão veio também e deitou a cabeça, em cima do meu peito, como de costume. E, como de costume também, comecei, distraidamente a afagar-lhe as orelhas. Depois, de maneira talvez um tanto brusca – não me sentia bem – disse: Buba! Vai–te embora! Acabou! … O cão ergueu-se nas patas dianteiras – a surpresa espelhada na limpidez glauca dos olhos, quase cegos – olhou-me. De frente. Depois, voltou a por as patas dianteiras no chão e – sem voltar a olhar para mim – como se eu não existisse – foi-se embora. Olhei-me nos olhos. De frente e pensei: cretino! Depois adormeci.
¶ 5/29/2006 08:43:00 PM
12 Maio 2006
Sum, es, est
Descem e sobem pelas paredes falsas do Céu e do Inferno Soldados armados e anjos alados, heróis e palhaços, génios, e Santos…todos misturados Legiões de vivos sedentos de morte, legiões de mortos com fome de vida, Crianças sem cor e velhos cansados de olhos apagados, Todos misturados, vogando sem destino pelo espaço vazio , Salpicado de brasas e cinzas geladas, E o mar furioso a dar chicotadas a querer afogá-los A dar machadadas Nas legiões de vivos e mortos todos misturados que se vão desfazendo Em nuvens de fumo em sombras de nada.
¶ 5/12/2006 06:03:00 PM
11 Maio 2006
Da última vez...Da última vez que fui à Caparica. O que me ficou: eu conto. Nos bancos de trás vinham “empilhados” talvez uns 15 adolescentes que faziam uma barulheira infernal. E a certa altura uma das raparigas levantou-se e começou a vir pelo corredor. Tinha vestidos uns calções, apertados, muito curtos e decotados até bastante abaixo da cintura a mostrar com generosidade la courbe de l’ancille… E a servidão de vistas que propiciava potenciava–lhe as graças mais do que se fosse nua. A marcha irregular e sacudida do autocarro fê-la perder o equilíbrio: tentou ainda agarrar-se ao varão dum banco mas não o conseguiu. E, desamparada, veio cair-me em cima… Devoto, agradeci a Graça à Virgem Maria… Ela, porém, a ímpia e porventura incréua rapariga, nem sequer se apercebeu da minha devoção. Sendo que, se a Senhora não tivesse dado – e sem dúvida o fez em minha intenção - aquele ar da sua Graça, ela teria, seguramente, malhado com os costados no chão… À gritaria que os do grupo faziam “ajuntava-se” o guinchar dos pneus e o rosnar surdo do motor - curva contra curva estrada fora - qual partitura duma criação de Wagner que tivesse enlouquecido… Lá de trás um dos amigos gritou não percebi o quê. Em resposta a rapariga, já refeita - e enquanto dava uma risada –, gritou também, à laia de despedida: “vai p’ró caralho!” Depois saiu. Do outro lado da coxia iam mais dois do mesmo grupo: talvez mais novos, treze, catorze anos, por aí… Sentados frente a frente. Em bancos separados. A rapariga tinha estendido uma perna e, com os dedos do pé entre as coxas do rapaz, acariciava-lhe os colhões. Ele ia contraído, curtindo o tesão como podia… e fingindo que dormia. De quando em vez olhava à volta, furtivamente, e voltava depois a semicerrar os olhos… Eu… afectava também um ar distraído fazendo de conta que não via ou que achava normal o que estava vendo… A situação “difícil” do rapaz só terminou quando a rapariga se levantou e saiu… Senti-lhe a falta... Tive pena: não percebi porquê. E quando, finalmente, todos se foram, cada um à sua vida, e de todos só restou, no autocarro - como se fosse um cemitério -, o tumular “silêncio” que deixaram - reduzido ao ronronar cavernoso do motor –, voltei a ter pena… e desta vez percebi: …era de mim que eu tinha pena. De quem havia de ser?
Da última vez que fui ao Guincho. Foi diferente: eu sabia – era certo - que a vida não tem regresso - e senti vir-me a amargura da certeza de que não ia - nunca mais - voltar a sentar-me lá em baixo nas pedras, a ver o mar… E vir-me também a certeza - de que, quando chegar a minha hora, irei ver ainda, nos teus olhos, o verde do mar, lá em baixo, a despedir-se de mim. Agora que o mar tem também a certeza de que eu não vou voltar. Nunca mais.
¶ 5/11/2006 10:55:00 PM